domingo, 30 de setembro de 2012

VOCAÇÃO: Professor


Já é de domínio público o quanto a sociedade em que vivemos não valoriza os professores. Que aceitamos isto passivamente, também é fato. Caso não fosse, todos nós brasileiros reivindicaríamos uma escola melhor não só para nossos filhos estudarem, mas também para que o profissional mais importante dentre todos os existentes, o Educador, exercesse seu ofício com plena dignidade.

            A reflexão que proponho hoje diz respeito à questão da disciplina e o delicado papel do professor - especialmente da escola privada – em aplicá-la de forma eficaz dentro da sala de aula.

            Conversando com uma amiga cujo filho é colega do meu na escola, fica claro o quanto é importante o papel do professor na vida de qualquer cidadão. Nossos meninos têm quatro anos, atualmente cursam a série Jardim B de uma escola privada de médio porte. A escola, bem conceituada na região, possui uma estrutura que contempla área de esportes, recreação, laboratórios de informática, ciências, artes, biblioteca, sala de áudio e vídeo etc. A filosofia de “cidadania atuante” proposta pela instituição é de fato praticada através dos vários projetos desenvolvidos paralelamente às atividades curriculares. Tudo planejado, organizado e executado sem grandes problemas. Mas e os professores?

Há pouco mais de dois meses tive um problema com meu filho em relação à disciplina exigida pelo professor em sala de aula, ou melhor, a falta dela. Meu filho é um menino tranqüilo, normalmente cordato e bem educado. Freqüentemente vinha sendo agredido por outro coleguinha. Procurei me inteirar da situação, tentei entender o que de fato estava acontecendo, o porquê da freqüência com que ele vinha sendo atacado pelo colega e obtive então a resposta aos meus questionamentos: a família do menino estava com problemas. A informação que recebi da supervisora da escola é que o menino estava em tratamento e que a família já tinha sido chamada para que tomassem as rédeas da situação. Procurei ser compreensiva, embora isto seja extremamente difícil pra uma mãe cujo filho venha sendo agredido gratuitamente, e disse que esperava que aquilo se resolvesse o quanto antes. Passados alguns dias, o problema continuava se repetindo. Procurei novamente a supervisão da escola que se limitou a repetir o mesmo discurso de antes, que o menino estava em tratamento. Obviamente não pude de minha parte manter a mesma reação. Disse que exigia, infelizmente, então, que meu filho fosse afastado deste colega, que os dois não mais brincassem juntos, pois não toleraria mais aquela situação.

Ameacei tirar meu filho da escola, procurar outro colégio caso o problema não fosse definitivamente resolvido. Orientei meu filho a afastar-se do menino, apesar de não me sentir confortável em tomar esta decisão. Mas, como toda a mãe, precisava defender minha cria. Depois desta conversa em tom mais áspero, o problema finalmente se resolveu.

            Pois bem, hoje, minha amiga me relatou que o mesmo problema está ocorrendo com seu filho. O menino tem vindo mordido, arranhado, com marcas de agressão feitas por outro colega. A escola tem se limitado a pedir desculpas. Minha amiga, mãe responsável que é, está disposta a procurar um psicólogo, pois o filho tem apresentado comportamento de rebeldia e a professora tem relatado que ele tem resistido às suas determinações, mesma queixa que ela teve em relação ao meu na época em que estava sendo agredido sistematicamente pelo colega. Mas então eu pergunto o óbvio: como as crianças irão obedecer a um professor que não consegue manter a ordem dentro da sala de aula? Sei que o comportamento dos pequenos em grande parte deve-se aos exemplos vivenciados no ambiente familiar, mas criança nenhuma respeita um professor que não tem domínio sobre seu grupo.

            Sei que a medida da disciplina, a dose com que deve ser cobrada dos alunos é uma diretriz que cabe à coordenação da escola definir, não somente ao professor. Mas dentro da sala de aula ele é a autoridade máxima. E esta autoridade necessariamente precisa ser exercida, caso contrário, instaura-se o caos.

            Esta ínfima questão, de alunos ainda tão pequenos, reduzida a uma sala de aula que contempla pouco menos de 20 crianças é realmente insignificante diante todo o caminho que cada aluno deste grupo irá percorrer em sua trajetória enquanto estudantes. (Será?) Pois penso que é exatamente nesta preciosa idade, neste pequeno laboratório chamado Jardim B onde os grandes ensinamentos sobre a vida precisam ser passados.

            Atrevo-me a dizer que o professor é a figura mais importante da sociedade. É ele o multiplicador de idéias, o organizador do jardim onde cada canteiro receberá mudas que germinarão durante toda a vida, é ele quem seleciona as sementes, quem prepara a terra e lança sobre elas o que posteriormente brotará. Se ao invés disto, ele abster-se de sua missão, todos nós sabemos o que ocorrerá. O mestre tem o poder de potencializar todos os recursos disponíveis na instituição. A questão é tão relevante que não poderia, de forma nenhuma, passar despercebida por nenhum pai e nenhuma mãe. Só para exemplificar o que digo, quando levamos nossos filhos ao pediatra e, por um motivo qualquer não gostamos do médico, nunca mais retornamos ao consultório dele. Não titubeamos em procurar outro profissional que nos atenda melhor. No caso do professor não temos esta opção. Uma vez a turma formada e entregue a seu mestre, ele a acompanhará por todo um ano letivo. Um ano inteirinho representando um papel importantíssimo da vida de nossos filhos.

            Lembro que na época em que fiz magistério, minha turma foi a última a ser submetida a uma entrevista de seleção. Ali nós tínhamos que nos expor, falar um pouco sobre quem éramos, porque havíamos escolhido o magistério e o que esperávamos desta carreira. Infelizmente no ano seguinte ao meu ingresso o teste foi abolido. Ou seja, a partir daquele momento qualquer um que fizesse o curso estaria apto a dar aulas. Mas será que todos os graduados em licenciatura são realmente Professores? Será que todos possuem a capacidade de encantar os alunos com os conhecimentos que precisam transmitir à classe? E quanto ao domínio da turma? A falta de domínio, em minha opinião, já é um indicativo de que o professor não esteja conseguindo despertar nos alunos interesse suficiente para mantê-los ocupados com as tarefas que deveriam executar. Ou talvez se sinta inseguro quanto a sua autoridade, ou ainda não possua o talento inato presente somente aos vocacionados a esta sagrada profissão. Disciplina é essencial no processo educativo, e precisa ser exigida.

Até entendo que para a escola privada o aluno signifique um cliente pagante, mas a figura do professor deve estar muito acima da cifra que ele representa. Os alunos precisam perceber que o professor não é a mamãe, que eventualmente cede a todos os desejos. Que ele é o adulto do bando e que os limites impostos precisam ser obedecidos. Não sou a favor da palmatória, mas é preciso no mínimo recorrer à moeda de troca. Se uma criança não apresenta comportamento adequado é preciso que o professor tome alguma atitude: afastá-la temporariamente da atividade do grupo, mantê-la fora de alguma brincadeira, perder algum privilégio que poderia ser concedido... enfim, é preciso que as crianças entendam que tudo na vida traz conseqüências.

            É lógico que caso o comportamento inadequado persista a família deve ser chamada, orientada, também acompanhada caso precise de ajuda. Mas um professor, dentro da sala de aula, independe do pai ou da mãe. Se em casa o filho faz o que quer, na escola precisa ser diferente. Até para poupar os demais colegas das atitudes descabidas de uma criança que não conheça limites. É nosso papel como pais exigir isto da escola. Educação não é só transmissão de conteúdos, provas, boletim. A educação integral inclui a socialização da criança, a assimilação de regras de convivência, o preparo interpessoal para toda uma vida.

Nem todos os que hoje estão em sala de aula possuem aptidão para isto. É papel também dos pais exigir esta habilidade em relação aos professores, entregar a eles a nossa própria autoridade para que a escola dê continuidade ao nosso trabalho de educar. Se a criança em casa recebe uma teoria que não percebe se concretizar na escola, todo o nosso trabalho é colocado em risco. Não delego à escola o papel de “domesticar” os alunos, mas vejo que ela é a primeira possibilidade que eles têm de colocar em prática toda a bagagem que trazem da família.

Professor é muito mais que diploma, é vocação.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Arquivo Carlinhos

Ivoti - 08/09/2012 (Minha família)

Já estava mais do que na hora de fazer uma “limpa” na pasta do Carlinhos. Havia ali pouco mais de nove anos de história. Na semana passada, revirando documentos pra anexar ao processo de solicitação à Farmácia do Estado o fornecimento da dieta dele, finalmente criei coragem e me debrucei sobre o mar de papéis.

Lembrei momentos que, quando vividos, achei que nunca conseguiria esquecer. Ri, chorei, algumas coisas lamentei, me orgulhei... enfim, revi todo o passado e refresquei a memória visitando os caminhos que percorremos pra chegar até aqui.

Comecei pela sessão de documentos pessoais. Tudo estava organizado em ordem cronológica, pra facilitar a pesquisa sempre que necessário. Então pra iniciar, “Cartão da Criança” – uma espécie de carteirinha de vacinação que o bebê ganha ainda no hospital. O apgar (nota atribuída ao recém-nascido) nove sempre me deu frio na espinha. Numa escala de 0 a 10, nove é uma excelente nota. Ele havia nascido perfeito: batimentos cardíacos, respiração, musculatura, movimentos... tudo lá, funcionando perfeitamente. O hospital aonde meu filhote veio ao mundo fica há poucas quadras da casa onde hoje moro, talvez por ironia do destino.

Ainda analisando a carteirinha, já é possível começar a entender um pouco do drama que marcou de forma definitiva a integridade física e mental do meu pequeno. A mãe biológica, na época com 14 anos, só havia ido ao hospital para dar a luz ao menino, não foi feito pré-natal. Ela já era mãe de uma menina de um ano de idade e, nos anos seguintes, a saga de “um filho por ano” foi a opção de vida daquela adolescente.

Em seguida a primeira certidão de nascimento, constavam ali os nomes dos pais e avós biológicos. O sobrenome anterior denota uma vida tão distante da realidade atual que tive a impressão de estar segurando nas mãos o documento de uma outra pessoa, não do meu Carlinhos. Junto havia ainda a antiga cédula de identidade e cartão CPF, tudo com seus antigos dados. É surreal saber que meu pequeno, um dia, não foi meu.

Logo, vieram os prontuários médicos. Fôlego... perco ele toda a vez que leio o que está escrito nos papéis amarelados do Hospital da Criança Santo Antonio – Sta. Casa. A internação com 30 dias de vida deixa claro o descaso da família. Ele havia se afogado com o leite havia alguns dias e desde então apresentava muita tosse. Após um curto período de internação (onde não fica muito claro o motivo) foi mandado embora. Aos seis meses de vida chegara novamente ao hospital com “mal convulsivo”, espástico, apresentava hematomas na cabeça ocasionados em épocas diversas – este é o registro. A mãe, descrita como pessoa agitada, nervosa, demonstrava inquietação e pedia constantemente para ir embora. Foi encaminhada ao serviço social do hospital e, depois disto, não há relatos do procedimento do hospital em relação a ela.

A tomografia detectou um trauma na região fronto temporal, o diagnóstico de paralisia cerebral havia sentenciado o pequeno Carlinhos a uma vida muito diferente da grande maioria das crianças. (Sinto um aperto na região do estômago que não conseguiria descrever nem com todas as palavras da língua portuguesa. Não existe um termo que defina o buraco negro que se abre em minha mente quando penso nisto.) Vamos em frente...

Após um mês de internação na UTI o Carlinhos teve alta. Foi pra casa com a mesma mãe e mesmo pai que o trouxeram, mas agora além dos dois, as seqüelas cerebrais também o acompanhariam.

Dizem que as mães biológicas que dão à luz crianças especiais, não raro sentem-se “culpadas” inconscientemente por terem “gerado um bebê que nasceu com problemas”, talvez instinto. Não sei se esta teoria realmente procede. Mas posso garantir que nós, mães adotivas de crianças especiais cujos problemas dos filhos são decorrentes de maus tratos, negligência, uso de medicação em tentativa de aborto, uso de drogas durante a gestação etc, em alguns momentos nos sentimos sim culpadas. Culpadas por termos chegado tarde, por não termos podido evitar, por não estarmos presentes no momento em que eles mais precisaram de proteção, por sabermos que aquele precioso momento que nunca mais o tempo trará de volta marcou de forma definitiva a vida de nossos amados filhos, enquanto nós nem sabíamos que eles existiam. (Sei que isto é insano, mas existem estes momentos. Só estou expondo aqui o que de fato acontece.)

Passada a sessão que chamo “carinhosamente” de “vida anterior”, a próxima é a que traz as primeiras cores da pasta até então cinza, devido ao peso dos fatos: o folder do Instituto Amigos de Lucas. Lá oficializamos o vínculo do Apadrinhamento Afetivo. Após 4 anos de convivência com a família de origem, Carlinhos foi para um abrigo de Porto Alegre – o Lar Santo Antonio dos Excepcionais. Quando o conhecemos ele já tinha 5 anos, estava há quase 12 meses no abrigo. Lembrei do dia em que nos conhecemos, da indescritível alegria que senti quando vi aquele menino pela primeira vez. Meu marido experimentou a mesma sensação que eu ao vê-lo. O apadrinhamento durou dois anos. Buscávamos Carlinhos nas sextas-feiras à noite e o levávamos de volta nas segundas-feiras pela manhã. Após estes dois anos, quando ele já estava com sete, buscamos o caminho da adoção. Estas lembranças vieram à tona graças ao “Termo de Guarda Especial” concedido pelo Juiz aos participantes do programa de Apadrinhamento Afetivo, ao “Termo de Guarda” que recebemos quando ele veio morar conosco e finalmente a nova Certidão de Nascimento, quando da efetivação legal da adoção.

Lembrei as adaptações que fizemos na casa, nos horários, no trabalho, na vida social, na rotina, nos nossos hábitos alimentares... e por aí vai.

Sessão INSS – esta me causa certa indignação. Quando adotamos nosso pequeno, tivemos que informar o governo do que havíamos feito. Isto ocasionou a suspensão do benefício (de um salário mínimo) que ele recebia antes de ser adotado. Pela lei brasileira, as pessoas portadoras de deficiência só tem direito ao LOAS (o tal benefício) se a renda familiar  por pessoa representar menos que ¼ de salário mínimo. Ou seja, se a renda da família for de um salário mínimo e a família for composta por 4 pessoas, o deficiente não tem direito ao benefício. Se tiver 5, o direito é concedido. Nunca precisamos do benefício pra custear as despesas do Carlinhos, mas acho realmente injusto o critério. Fico pensando no custo que ele representaria ao estado se tivesse permanecido no abrigo. Além do salário, que continuaria recebendo, dependeria do SUS para ter acesso a atendimento de saúde, seria beneficiado por doações de pessoas físicas e empresas que deduzem do imposto de renda os valores que doam a instituições beneficentes, entre tantas outras despesas diretas e indiretas que os abrigos (mesmo as ONGs) “repassam” ao governo. Mas isto é assunto pra muitos argumentos, não é este o momento para isto.

A próxima sessão foi Plano de Saúde: exames, laudos, diagnósticos, receitas de medicação... Ali estavam as brigas judiciais e extra-judiciais que travamos com os planos a fim de garantir os direitos ao atendimento que ele precisou e que os planos, argumentando “doença pré-existente”, não queriam cobrir. Vencemos tudo, embora ainda não tenhamos recebido duas indenizações que ainda tramitam na justiça.

A esta altura da separação entre o que ficaria e o que seria descartado, as pilhas já estavam enormes. Os documentos da “vida anterior” foram devidamente inutilizados, assim como as solicitações médicas muito antigas que já tinham sido atendidas. O restante voltou pra pasta, tudo novamente organizado, agora mais arejadamente.

No final, cheguei ao recorte de jornal que mostrava a reportagem feita logo depois da adoção, relatando o caso e traçando um paralelo entre a vida real e a ficção que a novela das oito abordava na época. Em “Páginas da Vida” a atriz Regina Duarte também adotou uma menina especial – era um caso de Síndrome de Down. Lembrei o quanto ri ao ler a expressão “mãe coragem” que me atribuíram na ocasião da matéria. Logo eu, que tive uma adolescência tão “movimentada”, pra não ficar chato descrever aqui os detalhes de tudo o que aprontei.

Então percebi que naquele momento eu tinha realmente me tornado uma pessoa adulta. A adoção foi um divisor de águas não só na vida do Carlinhos, mas na minha e na do meu marido também. E não só por termos nos tornado pai e mãe. Eu havia assumido um compromisso que era muito maior do que eu. Tinha a responsabilidade de CUIDAR de alguém. Cuidar indefinidamente, já que não sabia o que o futuro me reservava. Cuidar por um período indeterminado, pois não sabemos por quanto tempo Deus nos concederá a graça de termos um anjo em nosso lar. Cuidar de alguém mais do que a mim mesma, pois para uma mãe a vida de um filho vale muito mais que a sua. Amar, amar, amar... e mais amar.

Amar infinitamente é o que me possibilita ter percorrido todo este caminho. Amar esta criança com devoção, com todas as minhas forças, de todo o meu coração é o que me deixa inteira pra seguir em frente e ter a certeza de que independente do que acontecer, todos os obstáculos serão superados.

Até quando? Não sei. Nem quero saber. Costumo sempre dizer que quero apenas que meu filho esteja bem durante o tempo em que ele estiver aqui. Sei que ele tem uma missão a cumprir, que nada de tudo o que ocorreu foi por acaso. Acredito piamente que para tudo existe uma ótima razão.

Vejo nele, hoje aos 14 anos, um “homem” forte, corajoso, determinado a nunca desistir, resignado, persistente por nunca ter sucumbido às suas mazelas. Sei que esta provação exige muito dele e que ele não tem decepcionado o seu propósito, mantendo-se firme, sorrindo para o mundo. Sei também que no dia em que esta missão chegar ao fim não seria justo que eu quisesse mantê-lo aqui além do tempo necessário. Sei que ele um dia será livre, receberá de volta a sua consciência, poderá flutuar por onde quiser, conseguirá falar, se expressar, será novamente senhor de si. Neste dia ele não dependerá de mais ninguém, será autossuficiente, estará inteiro de novo. Só então a missão estará encerrada.

O momento da despedida Deus é quem sabe, confio na Sua misericórdia e sei que Ele não me faltará se eu fraquejar. Enquanto isso, aproveito cada momento, cada dia que Ele me concede o privilégio de ser a Mãe do Carlinhos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Amor Incondicional


                O amor incondicional não é aquele que simplesmente tolera o defeito ou finge não vê-lo. Tampouco o genuíno amor incondicional “adora” até o defeito, julgando assim ser superior aos demais amores.
                O amor incondicional é aquele que retira cuidadosamente o tecido velho e ensanguentado da ferida.  É aquele que encara a escara aberta e ainda espumante. E então oferece remédio... amargo, mas capaz de curar.
                O amor incondicional não abandona na dificuldade. Ele apoia o acerto, mas também aponta o erro. Pois não basta acompanhar o sorriso, sem ajudar a entender a causa da lágrima.
                É preciso coragem para amar alguém incondicionalmente.
                Porém, o amor incondicional impõe sim condição. Condição de dignidade, de respeito, de limite, de parceria. Pois sem isto não há amor. Há qualquer outra coisa (submissão, paixão, ilusão, dependência, acomodação...), mas não amor.
Ele não resiste ao descaso, à declaração do fracasso antes mesmo da tentativa.
            O amor incondicional supera tudo, mas é exigente.
Sua prerrogativa vital chama-se reciprocidade.

domingo, 23 de setembro de 2012

Semana Farroupilha


Tenho orgulho de ser gaúcha como teria orgulho de ser catarina, se em SC eu tivesse  nascido. Belezas naturais, um povo hospitaleiro, trabalhador, alegre, colorido.

Quero um dia ter orgulho de morar num estado que tenha erradicado a miséria, que não tenha na entrada de sua capital o acúmulo de malocas onde vivem cidadãos gaúchos em condições sub-humanas. Quero ter orgulho de um estado que tenha uma escola pública de qualidade, capaz de formar cidadãos pensantes, conscientes de sua responsabilidade diante da vida, das suas famílias, da sociedade, capazes de ingressar na universidade (também pública) sem ter que fazer anos e anos de cursinho.

Quero a volta da disciplina Moral e Cívica que um dia me ensinou que eu sou gaúcha e brasileira. Quero ter orgulho de não ter mais medo da violência, de saber que todos os prédios públicos são adaptados para portadores de deficiência, que existe saúde de qualidade pra todos.

Quero ter orgulho de saber que nosso estado recicla 100% do lixo que produz, que ninguém mais precisa esmolar na sinaleira, que toda a infância está realmente protegida.

Quero um dia ter orgulho de viver no estado que não pensa que seus homens são machos porque não são gays, mas sim porque são corajosos o suficiente pra aceitar e tolerar as diferenças, porque são capazes de respeitar a diversidade humana.

Sei que para tudo isso acontecer e tantas outras coisas que realmente me diferenciassem dos demais estados brasileiros e me fizessem ter ainda mais orgulho de ser gaúcha, o Rio Grande precisaria da participação de todos. Tenho procurado fazer a minha parte.

E tu, gaúcho?

sábado, 22 de setembro de 2012

Herói de verdade


Ontem, por volta de onze horas da noite cheguei em casa após seis dias de internação com meu filho Carlinhos no Hospital da PUC de Porto Alegre. Meu filho precisava de uma gastrostomia, e por este motivo estava hospitalizado.
                Graças a Deus o procedimento foi um sucesso. O garoto é forte, apesar de todas as suas limitações adquiridas em decorrência de uma paralisia cerebral que o acometeu aos seis meses de vida. Hoje, com treze anos, Carlinhos acabou de superar mais um dos obstáculos que a vida insiste em colocar no seu caminho. Mas ele, como rotineiramente faz, não deixou por menos e tirou de letra mais esta provação.
                Vitórias da família a parte, após este episódio, nunca mais serei a mesma. Fui marcada por uma experiência única e, talvez, indescritível, já que as palavras jamais conseguirão expressar a essência dos sentimentos que vivenciamos.
                Dividi, durante este período, o quarto do hospital com um herói chamado Alan Vitor, de apenas três anos e meio de idade. O garoto teve um problema na uretra diagnosticado ainda durante a gestação. Ao nascer foi separado de sua progenitora, já que o hospital onde veio ao mundo não possuía recursos para tratar seu caso. Resultado: mãe e filho, cada um em um hospital, já que o parto foi prematuro e a mãe também precisava permanecer internada por alguns dias. Após um período inicial de atendimento, Alan teve alta e foi finalmente conhecer seu lar.
                Como a vida não segue ao pé da letra os contos de fadas, o caminho em direção ao final feliz de Alan tem muitas curvas e várias outras complicações surgiram ao longo destes três anos de vida. Desta vez, em que nos conhecemos, Alan já estava internado há trinta e cinco dias. O diagnóstico era de insuficiência renal aguda, que não respondeu bem ao tratamento com medicação, pois os rins continuam sem funcionar.
                Mas o que realmente me marcou não foram as idas e vindas de hospitais, as mudanças no diagnóstico, o desenrolar de cada etapa de dificuldade do frágil sistema urinário de Alan ou mesmo a incógnita que ainda paira sobre o seu verdadeiro diagnóstico. O que me deixou extasiada foi ver a sua persistência em continuar sorrindo, apesar das inúmeras agulhadas que recebia durante o dia, do confinamento de estar deitado dentro de um quarto de hospital frio e impessoal, a simpatia com que recebia os técnicos da enfermagem, médicos, enfermeiros, coletores de amostras de todos os tipos, fisioterapeutas e todos os demais que entravam e saíam do quarto a todo o momento. Eu era arrebatada ao ouvi-lo dizer “Estou bem” toda a vez que algum deles perguntava como ele estava se sentindo.
                O cateter da hemodiálise fincado no ombro, parecendo uma medalha de condecoração militar era a sua honraria. Ele exalava luz por todo o ambiente.
                Obviamente nos momentos de dor ele chorava, mas imediatamente ao término do procedimento lá estava ele, inteiro novamente, pronto pra assistir ao próximo desenho animado como se nada daquilo estivesse realmente acontecendo.
                Foi mágico estar em companhia daquele menino, me senti covarde perto de tanta força, tanta determinação em não assimilar o sofrimento, em se manter indiferente ao difícil. Era comovente assistir sua respiração profunda antes de aceitar mais uma dose de remédio, como se tivesse consciência de que era aquela a única alternativa.
                Há coisas na vida que são inesquecíveis. A coragem daquele menino tão pequeno, de cabelos dourados lisinhos, com olhar atento e resignado, jamais sairá da minha memória.
                Sinto-me privilegiada por ter conhecido alguém tão especial, no sentido mais completo da palavra. Torço pela sua recuperação. Desejo ardentemente que a biópsia prevista para ser feita esta semana revele que o caso dele não é tão grave, e que o uso de novos medicamentos poderá ajudá-lo.
                E a vida segue... agora com mais doçura, pois tenho a convicção de que super heróis existem, são de carne e osso, estão generosamente vivendo entre nós (simples mortais). Eles sim são eternos. Eternos em sua grandiosidade, em sua luminosidade, em sua inabalável vontade de vencer os desafios. Seja o Alan também eterno em minha lembrança.
Cachoeirinha, 21 de março de 2012.

Bem-vindos!

Queridos amigos, tenho recebido há algum tempo críticas bastante incentivadoras relacionadas a meus singelos textos, material que iniciei publicando no orkut e hoje o faço em meu perfil do facebook. Hoje, por sugestão de um grande amigo (quase um irmão - Luciano Pandolfo Cardoso) estou inaugurando meu blog.
Não tenho nenhuma pretensão de utilizar este espaço para ditar regras, aprovar ou desaprovar de forma definitiva as situações/pessoas com quem convivo, apresentar-me como detentora da verdade, do certo ou do importante. Pretendo aqui simplesmente expor meus pontos de vista, dividir algumas experiências e meus sentimentos em relação à vida cotidiana,  situações pelas quais muitos de nós passam eventualmente ou as grandes questões da humanidade que volta e meia invadem minha mente.
Raramente me reedito. Graças a pluralidade de questões que nos cercam, busco a cada dia um novo tema. E eles surgem sem requerer muito do meu esforço em procurá-los.
Às vezes sou doce, às vezes pimenta ardida. Tudo faz parte do meu caminho e nada passa desapercebido. Escrever pra mim é uma necessidade, portanto, perdoem-me os que por ventura me interpretarem com arrogância ou intransigência. Sou mesmo contundente em minhas opiniões, mas nunca a dona da verdade, até porque isto ninguém pode ser.
Espero ser útil a todos os que se interessarem em acessar os conteúdos aqui publicados. Um beijo a todos! Nos vemos por aqui..