Esta semana coloquei todos os "móveis" na rua.
Expus tudo ao sol.
Com isto, consegui enxergar o que estava tomado pelos
cupins.
Aparentemente eram bons móveis, estavam em bom estado e se
eu não os tivesse removido talvez jamais saberia que estavam ocos por dentro.
A pintura ainda estava boa, externamente eram perfeitos, mas
bastou um toque com mais pressão e... 'crash', lá se foi a fina casca que
escondia o enorme vazio interior.
Aqueles que realmente eram bons, fortes e úteis voltaram
para a sala de estar. Ganharam mais espaço, lustrei-os com um bom óleo de
peroba e hoje brilham ainda mais. Agora há espaço para novos, que
criteriosamente irei escolher para completarem a nova atmosfera que ganhou o
ambiente.
Já os que não resistiram à ‘pressão’... destes me desfiz.
Não lamento tê-los mantido comigo por tanto tempo. Guardo belos retratos que
tirei com eles em dias felizes. Talvez, na época, fossem os melhores que eu
poderia ter. Mas o tempo passou e, assim como eu, eles também mudaram.
Chamei um caminhão que arrecada donativos e entreguei-os um
a um. O que pra mim é obsoleto, certamente para outros será de grande utilidade.
Desejo que sejam bem cuidados, valorizados, recebidos com alegria em seus novos
lares. Talvez um bom pesticida os revigore e os deixe melhores do que quando os
mantive comigo.
Minha nova sala está diferente, sei que levarei um tempo até
me acostumar com as novas disposições das peças. O hábito de abrir e fechar a
mesma gaveta ainda faz com que em alguns momentos eu me direcione a um armário
que não está mais aqui. Mas quando lembro que toda a vez que pegava algo que
estava ali era preciso limpar, sinto-me aliviada em saber que não mais terei
que afastar as ‘bolinhas’ que se acumulavam dentro dela. Passei muito tempo
inutilmente removendo resíduos que se multiplicavam ‘magicamente’ todos os
dias. Meu trabalho era patético, quase infantil. Mas era o que eu tinha que
fazer. Nunca consegui fingir que não vejo a sujeira.
Tudo agora é mais limpo, mais belo, mais harmonioso.
Certamente não é perfeito.
Nunca será.
Mas assim, como ficou, é muito mais a minha cara.
Talvez algumas visitas não gostem, critiquem o novo estilo,
o meu ‘estranho’ desapego a peças que me acompanharam durante tanto tempo.
Caso isto aconteça, sei que sobreviverei. Já fiz outras
mudanças com a mesma finalidade e ainda estou aqui.
Afinal, a casa é minha, quem mora aqui sou eu e é a minha
alma que ela deve refletir.