sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Adotar faz bem


Muito raramente, não com a frequência que eu gostaria, o Carlinhos aceita ingerir algum alimento via oral.

Mesmo usando sonda há um ano, até hoje eu ofereço refeições para que ele possa sentir o gosto de um docinho ou salgado - tudo em consistência de iogurte, devidamente processado e sem nenhum pedacinho sólido, pra que ele não se engasgue. Claro que não faço isto seguidamente, porque sei o quanto é difícil para ele a função da deglutição. E mesmo sendo raramente, nem sempre ele aceita bem, começa a tossir, demonstra sentir náusea, e então imediatamente eu paro.

Mas hoje ele aceitou bem, comeu purê de batatas com caldo de feijão. Uma quantidade pequena pra um adolescente de 14 anos, depois tive que completar a refeição com meia dose de dieta pela gastrostomia.

Mas é tããããããããããão gratificante vê-lo comendo, que mal posso conter minha alegria. Fico olhando ele comer sorrindo, falando, babando (kkkkk) – tudo junto, ao mesmo tempo. É muito bom vê-lo sentindo prazer em se alimentar, sentir o gosto de alguma coisa que não só o creme dental. Naquele momento esqueço que ele tem uma perfuração na barriga e mato a saudade de quando aquilo não era necessário.

Fico toda boba, vendo a independência que ele tem naquele momento, de poder ele mesmo engolir o que irá para o estômago. Acho o máximo!!!!!

Estes momentos não tem preço, são realmente indescritíveis.

Não sei quando ele aceitará novamente, mas continuarei tentando. Por ele e por mim. Instinto de mãe, certamente. Aquela ‘gana’ que a gente tem de poder alimentar o filho. A psicologia deve ter resposta pra isso. Hehehe

Passado o momento de euforia, fiquei lembrando das campanhas estilo “Adote um bichinho de estimação”, que a gente toda a hora vê na mídia. As exposições de animaizinhos sem pedigree, que esperam um dono ou dona pra finalmente ganhar um lar.

Acho louvável mesmo que movimentos assim sejam feitos. Adoro os bichanos, embora atualmente minha rotina não permita ter um em casa.

Daí fiquei pensando... Porque será que não existem Campanhas de Adoção de Pessoas?

Claro que gente não é bicho, seria ridículo conceber a idéia de exposição de pessoas para adoção...

Mas porque será que o Estado não investe maciçamente nesta idéia? Os abrigos cheios de crianças e adolescentes desejando ardentemente uma chance... e nada.

Sempre que converso sobre adoção com alguém que não tenha tido nenhum tipo de contato com esta realidade, invariavelmente tenho que desmistificar uma série de conceitos, esclarecer as regras do jogo, ignoradas por quase toda a população.

Isto me fez pensar que não existe uma iniciativa de política positiva em relação a este tema.

Lamentável...

Mas eu, de minha parte, deixo aqui o registro da minha singela, porém MARAVILHOSA experiência de vida e o meu incentivo a todos aqueles que tem vontade de adotar uma criança ou um adolescente, negro ou branco, saudável ou portador de alguma deficiência, menino ou menina, sozinho ou pertencente a um grupo de irmãos:

ADOTE UMA PESSOA!

 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Cuidado com os "elogios"!

Ouça com atenção tudo o que as pessoas têm a dizer sobre você.
Porém, não esqueça de colocar um filtro no ouvido, ninguém conhece 100% da sua essência e isto pode gerar opiniões erradas sobre a sua pessoa. Não aceite rótulos simplistas ou generalizações baratas sobre quem você é. Aproveite somente o que lhe pareça coerente e realmente engrandecedor.
E agora sim, o MAIS IMPORTANTE: procure a verdadeira intensão de quem está te julgando/avaliando. Salvo em casos de extrema generosidade, as pessoas normalmente apontam em você o que AS desagrada, não o que lhe diminui enquanto ser humano.
Uma crítica pode revelar muito mais sobre quem o outro é do que quem você é.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prioridade: EU

Devemos ser urgentes com as questões que nos digam respeito, priorizar nossas próprias necessidades, principalmente as de melhoria interior.
Não por uma questão de egoísmo, mas pelo simples fato de que todo o resto que nos circunda depende exclusivamente de como estamos nos tratando.
As pessoas que atraímos, a energia que emanamos, as doenças físicas e emocionais que desenvolvemos, o sucesso ou o fracasso no âmbito profissional, a qualidade dos relacionamentos que cultivamos. Enfim... tudo começa em nós.

Tudo o que colhemos é fruto do que plantamos. E estamos em constante plantio. Selecionar as sementes e, alterar os critérios de seleção sempre que necessário, é a única forma de garantir colheitas cada vez mais fartas e de maior qualidade.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia da Consciência Humana


Pra mim hoje é "Dia da Consciência Humana".
Enquanto a humanidade insistir em segregar-se em raças, cores, credos, ideologias, sexualidades, profissões, diagnósticos, classes sociais, etc etc etc..., continuaremos APENAS comemorando datas que contemplam alguns isoladamente, tentando elevá-los em relação aos demais (ao menos naquele dia).
Somos todos iguais, todos os dias do ano, perante a lei, perante Deus e perante os homens de boa vontade.
Devemos lutar por justiça social, igualdade de fato (não apenas de direito), pelo resgate da história, pela dignidade das minorias oprimidas. E isto não é um DIREITO apenas dos negros, dos índios, dos homossexuais, das mulheres, dos deficientes ou dos pobres. É um DEVER de TODOS!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O sentido da caridade

Quem atribui um ato de caridade à geração de uma dívida, ainda não compreendeu o seu verdadeiro significado.
Dívidas são contraídas por ações negativas, nunca por um ato de amor.
O único sentimento que a caridade deve gerar é o de gratidão e não o de endividamento.

sábado, 17 de novembro de 2012

O mais chato de conviver com quem não 'vira a página' é que a pessoa fica lendo mil vezes a mesma coisa... em voz alta.

Opção de vida: Felicidade!

Sempre que alguém me pergunta se estou feliz, respondo que não.
Eu não ESTOU feliz, eu SOU feliz!
Ser feliz é uma decisão que tomamos e não um objetivo a ser alcançado. Todos temos motivos de sobra para encontrarmos a felicidade em qualquer circunstância da vida, por mais adverso que seja o momento.
O segredo é valorizar o que está bem, trabalhar com dedicação no que não está legal e diminuir o nível de ansiedade e expectativas em relação ao que não depende de nós.
Bom final de semana a todos! Sejam felizes!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

INTOLERÂNCIA ao racismo!


“Acabou o veraneio, agora só tem negrão”. Esta frase marcou lamentavelmente o fim da minha temporada de praia no ano de 2010.

Estávamos organizando a bagagem para a viagem de retorno à Gravataí. O verão tinha sido ótimo, era o primeiro que passávamos numa pequena praia dos arredores de Tramandaí onde tínhamos comprado uma casinha de veraneio. Fizemos novos amigos, levamos os mais chegados e alguns parentes para passar alguns dias conosco na nova casa do litoral, nos divertimos muito. O verão foi de fato aproveitado. Então, quando carregávamos as malas para finalmente voltar pra casa, recebemos a visita de um conhecido, proprietário de uma pequena imobiliária do local, que veio despedir-se, pois com o fim do carnaval pouquíssimos veranistas ainda estavam por ali. Entre eles, uma família de etnia negra, hospedada numa casa bem próxima à nossa. Além dos pais, havia três adolescentes na casa. Os meninos saiam de carro várias vezes ao dia e sempre com o som ligado em alto volume, como muitos adolescentes o fazem, já que a pouca fiscalização no trânsito e o ambiente fantasmagórico (devido à maioria das casas já estarem desabitadas) são quase um convite ao volante pros que ainda não possuem carteira de motorista, embora já saibam dirigir.

O referido conhecido estacionou o carro em frente à nossa casa, desceu, cumprimentou-nos com um sorriso amistoso, disse que sempre lamentava o fim da temporada de praia. A cidade ficava triste, vazia... Desejou-nos uma boa viagem, disse que ficaria aguardando o nosso retorno pra talvez tomarmos um chimarrão (ele e meu marido tinham descoberto alguns interesses profissionais em comum), retornou para o carro e antes de ir embora se sentiu a vontade para proferir a “pérola”: ‘Acabou o veraneio, agora só tem negrão’.

Ficamos mudos diante da ousadia da demonstração de racismo. Como não esboçamos reação, ele pensou que não tínhamos ouvido ou ‘entendido’ o que ele dissera e então repetiu a frase, desta vez em tom mais alto. Virei às costas e entrei na casa. O Robson limitou-se a acenar em despedida para que ele saísse logo dali.

Eu e meu marido estávamos realmente incomodados. Nunca demos a ele o direito de fazer revelações sórdidas de preconceito, jamais demos abertura para que ele se sentisse a vontade para aquilo e confesso que há bastante tempo não ouvia um comentário de conotação racista tão explícito como aquele. Imediatamente meu sangue ferveu, senti as bochechas esquentarem, o coração veio pular no pescoço, as mãos tremiam involuntariamente. Eu estava PUTA da vida.

Então fiquei pensando em como alguém se arrisca ao expor seu preconceito, seja em relação ao que for. Eu, visivelmente sou filha de brancos, sou morena de pele clara, meu rosto não possui traços indígenas, negros ou asiáticos. Minha etnia tem raízes europeias, apesar de eu não ser loira e também não ter olhos claros. Mas ele não me conhecia, não sabia da minha história, da minha vida, das minhas crenças. E se eu tivesse um padrasto ou madrasta negra que fosse alguém importante para mim? E se eu tivesse um negro como meu melhor amigo? E se eu tivesse encaminhando documentos para adotar uma criança negra?

Não sou racista, mas também não sou negra. Não sou obrigada a presenciar ou testemunhar o racismo de quem quer que seja. Sinto-me agredida quando alguém se concede o direito de manifestar seu racismo na minha presença. É como uma bofetada na minha cara, pois leio este comportamento da seguinte forma: se você fosse negra eu não te trataria como estou te tratando, não consideraria você uma possibilidade de amizade, não seria sincero como penso que posso ser pelo fato de você ser branca.

Mas quem disse que pelo fato de eu não ser negra eu seja obrigada a tomar conhecimento do racismo do outro? Quem disse que pelo simples fato de EU não ser negra, não signifique que eu não seja uma ativista contra o racismo?

Conheci a realidade das crianças abandonadas nos abrigos e lá pude constatar de forma prática o que sempre soube na teoria. Os negros continuam sendo discriminados, massacrados, explorados, diminuídos pelos brancos. Claro que muitas conquistas já ocorreram, principalmente depois da criação de leis contra o racismo que criminalizam a prática do racismo. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Quero acreditar que o racismo não existe mais, estou criando o meu filho de modo a não ressaltar a discriminação, para que ele talvez tenha a possibilidade de não conhecer o maldito preconceito. Mas quando me deparo com um animal irracional manifestando de forma sarcástica o seu lado podre, percebo que este mal está longe de ser realmente banido.

 Queria muito não ter que falar em preconceito para o meu pequeno, gostaria que esta palavra fosse abolida do dicionário, sei o quanto é nocivo ter que lutar contra algo invisível, dissimulado, que fica nas entrelinhas. Mas estou convicta de que terei que fazê-lo. Lamento mesmo.

Meu manifesto, obviamente não se limita ao racismo, mas se estende a todo e qualquer preconceito. Eu não preciso ser negra pra me reservar o direito de não ver exposto o racismo do outro, não preciso ser declaradamente lésbica para ter o direito de não ser exposta a homofobia, não preciso ser pobre para não ter que aturar a soberba dos ricos. Eu simplesmente tenho o direito de não receber ou, ao menos, não ser obrigada a presenciar qualquer manifestação de preconceito.

Quando alguém deliberadamente manifesta o seu preconceito diante de outra pessoa (ainda que ela não seja o alvo da sua bestialidade), ela está lançando um desafio. Quem faz isto obriga seu interlocutor a receber sua influência negativa em relação ao tema. Gente!!! Racismo é crime!!! Porque cargas d’água alguém se sente no direito de continuar disseminando ideias criminosas??? Isto é uma afronta à moralidade! Sinto-me profundamente agredida como ser humano, como cidadã que conquistou constitucionalmente o direito de ver banidos os manifestos racistas.

No meu entendimento todo o preconceito pode ser definido como uma falha de caráter, pois em nome dele são gerados atos de violência com os mais variados níveis de gravidade, atingindo não só o seu objeto de discriminação, mas ameaçando a paz social e a convivência respeitosa a qual TODOS temos direito. O preconceituoso cria em torno de si um clima de hostilidade gratuita em relação ao alvo da sua opinião discriminatória. Em nome do preconceito, todos são submetidos a uma tensão absolutamente desnecessária e irracional, já que o preconceituoso está constantemente disposto a subjugar o outro de forma pré-concebida, sem critérios concretos e racionais de julgamento.

Eu tenho o DIREITO de não tolerar o racismo ou qualquer outro tipo de preconceito!

Qualquer um que se manifeste na minha presença contrariamente a isto está invadindo o meu espaço intelectual, está poluindo moralmente o meu ambiente, está querendo entregar a mim a sua pior versão. EU PROTESTO!!!!!

Racistas, homofóbicos e qualquer outro tipo de ser preconceituoso, reservem para vocês mesmos o seu veneno. Não nos obriguem a compartilhar de suas misérias e de sua irracionalidade. NINGUÉM é obrigado a ouvir suas atrocidades! Parem de se expor ao ridículo!

Parem de nos expor às suas patologias morais!

Tolerância é um dever, mas acima de tudo é um DIREITO de todos. Não tentem nos subtraí-lo, obrigando-nos a abrir mão de exercê-lo em relação a vocês.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Esperando o Natal


Hoje estamos abrindo oficialmente o período "festas de final de ano". Já separei os objetos que irão decorar a casa, a árvore de natal e seus múltiplos adornos, as luzes que irão iluminar o jardim... agora mãos à obra. Bora montar o 'circo natalino'.

Mas a mente quer mais... SEMPRE mais.

Esta época do ano, pra mim, é um misto de sentimentos. Alegria, por mais um ano vivido, contentamento pelas conquistas, gratidão pela saúde física e mental, emoção ao lembrar a história do menino Jesus, paz em imaginar como será a ceia, os abraços, as mútuas felicitações. Mas neste contexto é inevitável pensar nos que não terão o mesmo que eu, nos asilos, nos abrigos para menores abandonados ou infratores, nos presídios, nos hospitais, nas malocas feitas de lixo, nas clínicas para drogados...

Há tanta dor no mundo, tanta miséria, tanta injustiça, tanta covardia e sujeira...

Lembro-me agora da oração de São Francisco: “Fazei de mim um instrumento da Tua paz”.

Quero muito mais que um Feliz Natal pra todos! Quero dignidade, justiça, igualdade, liberdade, acesso à saúde, educação de qualidade, inclusão social, ar e água limpos, políticas públicas que contemplem os mais necessitados não com esmolas, mas com oportunidades de um futuro melhor. Quero a infância protegida, longe dos vícios, da marginalização, da discriminação. Quero o fim do preconceito, da opressão e da exploração...

São tantos desejos, que não consigo parar de enumerá-los.

No fundo, o que desejo, é ser como Jesus, seguir seus exemplos, me manter firme na minha caminhada. Desejo que eu nunca abandone a minha indignação, a minha revolta e minha capacidade de protestar contra tudo isto que abomino. Desejo ser lúcida pra enxergar todas as oportunidades onde eu possa ser útil ao meu próximo. Desejo fazer com as minhas próprias mãos o mundo que sonho em um dia ver.

Estou aqui, Senhor, pronta para ser um instrumento da minha, da nossa, da Tua PAZ!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Grande Rebelde

Se Deus quisesse que fôssemos fantoches uns dos outros ou que os menos afortunados se submetessem às humilhações dos mais favorecidos Ele não teria enviado um rebelde para que nos servisse como exemplo de conduta.
Sim, Jesus Cristo foi o maior rebelde de todos os tempos, ele nunca se acomodou à hipocrisia, nunca se submeteu aos poderosos, aos covardes, aos oportunistas. Ele combateu a mentira, a falsidade, a maldade e a injustiça como nenhum outro rei, político ou sociólogo jamais ousou fazer.
E sem utilizar violência, fez a maior revolução que o mundo já testemunhou.
Mais de 2000 anos depois ainda não conseguimos compreender (ou ao menos colocar em prática) a maior parte dos seus ensinamentos. Isto prova o quanto Ele era infinitamente superior a qualquer um de nós.
Nunca houve outro homem com tamanha grandeza, coragem e poder de amar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Entregue a Deus

Penso que talvez o mais difícil para um verdadeiro Cristão seja querer ajudar alguém e descobrir que o outro simplesmente não queira ser ajudado.
Nos entristecemos quando constatamos que um ser humano abriu mão da grande oportunidade concedida por Deus através desta encarnação, incorrendo no erro ou na rebeldia, pois sabemos o quanto ela é preciosa e importante.
Mas não devemos esmorecer. Lembremos da experiência de Jesus, que foi covardemente assassinado pela humanidade pelo simples fato de demonstrar o seu amor por nós. Somos os mesmos desde então. Nascemos, morremos e renascemos em lenta mas constante evolução.
Cada um possui um tempo próprio. Respeitar o livre arbítrio e encarar a nossa impotência diante da vontade do outro é sinal de maturidade, além de ser prova de fé, pois um cristão jamais vira às costas a um irmão. Nós apenas o entregamos a Deus.

domingo, 11 de novembro de 2012

Vem, chuva

Tenho um apreço especial por dias cinzentos, eles propõem reflexão e uma varredura interior.
Desejo que venha a chuva e carregue com ela toda a sujeira das ruas, dos homens, do mundo...
Águas, revirem a terra em depositem sob ela todo o mal que há.
Que este lixo interior, a exemplo dos resíduos orgânicos, transforme-se em poderoso adubo.
E que esta reciclagem nos liberte de nossos próprios venenos, cedendo espaço para um novo ciclo cheio de flores, de vida e de cores.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Filhos Especiais


Filhos especiais nos tornam pessoas especiais. Aprendemos através dos seus limites o quanto é perfeita a natureza e nem nos damos conta da sua magnitude. Pois ao invés de nos determos no “defeito”, nos apegamos a tudo o que neles “funciona perfeitamente”.

Um dia, não lembro por que motivo encostei o ouvido no peito do meu filho e ouvi as batidas do seu coração. Eu sempre soube que ele funcionava perfeitamente, mas o pulso que percebi em cada batida era tão vigoroso que ali reconheci a gigantesca força da vida. Aquele coração perfeito não conhecia o limite do corpo. Ele funcionava harmoniosamente a despeito da paralisia cerebral, das crises convulsivas, das deformidades ortopédicas que o tempo se encarregava de moldar no seu corpo. A vida ignora a dor, como a onda ignora o repuxo da maré. Ela avança sobre ele, desafia a sua rebeldia em querer carregar as águas para o lado oposto e simplesmente derrama-se sobre a areia branca, cumprindo o seu destino.

Os filhos especiais nos ensinam a valorizar pequenas conquistas, por menores que sejam. Nos mostram um mundo de grandes feitos onde a trivial ‘normalidade’ jamais nos revelaria.

Somos sim mães superprotetoras, brigamos como leoas pelos seus direitos, questionamos a medicina como se os médicos de nada soubessem, desafiamos os seus conhecimentos exigindo provas do maldito ‘irreversível’. Pesquisamos tratamentos, contestamos as previsões negativas, nos agarramos ao otimismo quando a ciência nos indica um futuro nebuloso. Vivemos um dia de cada vez e todos como se fosse o último. Não fazemos planos para longos períodos, pois a fatalidade pode nos surpreender na próxima complicação. Aprendemos a renunciar projetos, recusar alguns convites, virar a casa de pernas pro ar em busca do melhor ambiente para eles. Viramos escravas do relógio, controlamos a dieta, a medicação, os dias que se passaram sem que eles evacuassem (para intervir com laxantes, caso necessário). Não os confiamos a ninguém, embora muitas vezes tenhamos que deixá-los sob os cuidados de outra pessoa. Mas confiar... não dá, ninguém os conhece como nós.

Vivemos constantes paradoxos. Para nós, mães de filhos especiais, nunca chega a hora de deixar de dar colo, apesar do desenvolvimento dos seios ou do crescimento do bigodinho, do surgimento dos pelos pubianos e das espinhas que invadem seus rostinhos. Eles, aos nossos olhos, serão sempre bebês que precisam ser carregados. No colo, na alma...

            No fundo, são eles quem nos carregam, é deles que recebemos a força necessária para superarmos todos os obstáculos, são eles quem nos transmitem os grandes ensinamentos. Eles nos tornam fortes como rochas, por eles descobrimos que o único motivo da existência de um limite é a sua superação. Por eles nos tornamos mais humildes, menos mesquinhos, maiores na tolerância, na força física (porque o esforço não é pouco), na paciência e na perseverança. Filhos especiais são capazes de realizar verdadeiros milagres.

            09/11/12

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Morte e Vida


Talvez o que nos impeça de “aceitar” a morte seja o fato de nos pretendermos acima da natureza. A condição de animal racional, por vezes, ilusoriamente nos distancia do pertencimento ao ciclo da vida.

Temos a possibilidade de compreender, analisar, planejar, executar e avaliar a nossa existência, diferentemente dos outros animais, e por isso passamos a acreditar erroneamente que não somos assim ‘tão animais’ quanto os demais. E este distanciamento, que a racionalidade nos faculta, é justamente o que nos faz ‘pensar’ que deveríamos estar acima da possibilidade da morte. Um paradoxo, já que a própria vida nos impõe este limite.

Só não está sujeito à morte, aquele que não tem vida. Logo, não aceitar a morte significa não aceitar a vida propriamente dita em toda a sua complexidade, não compreender de fato a sua beleza, seu infinito recomeço e as suas constantes transformações. Não aceitamos porque não queremos sair de cena, deixar de ser o eterno predador e tornar-nos a presa na cadeia alimentar.

Claro que nesta questão estão envolvidos muitos outros fatores como o medo do desconhecido (já que ninguém ‘voltou’ para contar o que encontrou após morrer), a religiosidade e um ‘julgamento pós-morte’ que a fé nos sinaliza, deixar a convivência com nossos afetos, abandonar os bens materiais, ser desapropriado do próprio corpo, saber que as sensações da vida física não serão mais experimentadas (dores e prazeres), mergulhar no ciclo como fornecedor e não mais como cliente.

Todas as variantes que circundam a morte são inegavelmente irreversíveis e nada podemos em relação a elas. No fundo talvez seja isto o que nos cause tanto espanto. Mas então eu pergunto: E quanto à vida, na qual tudo podemos e, pensando que haverá sempre um amanhã, acabamos nunca realizando o que tanto gostaríamos? E todas as possibilidades que deixamos passar enquanto desprezamos a morte, embora a temamos terrivelmente?

A reflexão que proponho não é quanto à impotência que a morte implacavelmente nos impõe, mas sim às infinitas opções que a vida nos apresenta a cada ano, cada dia, cada segundo.

Todos vamos morrer, mas quantos de nós seremos capazes de deixar uma saudade e uma admiração coletivas e não apenas nos familiares ou amigos próximos? Quantos poderão deixar um legado de realizações, de superação, de construção de algo relevante para si, para os seus ou para toda a humanidade? Perceber que somos finitos deveria nos servir como combustível para a vida. Aceitar que um dia não mais seremos deveria fazer-nos valorizar ainda mais o que hoje somos. Saber que o jogo acaba deveria fazer-nos ser exímios jogadores.

Tenho minhas crenças em relação à criação, à vida e à morte, assim como a grande maioria das pessoas também as tem. Respeito e até aplaudo a pluralidade de credos. Mas objetivamente isto passa ao largo do concreto, do palpável e do ‘comprovado cientificamente’. Discutir teorias não nos levaria a lugar nenhum, até porque nenhum de nós poderá comprovar a sua crença enquanto estiver vivo. Mas ainda àqueles que crêem numa vida após a morte e na reencarnação, para eles esta existência (a atual encarnação) é também uma possibilidade única e que não se repetirá jamais. Logo, proponho que a morte não seja vista como um tormento, um castigo ou uma ameaça da vida ou de Deus. Sugiro que ela nos traga a consciência do hoje, do agora. Que ela nos sirva para mergulharmos mais profundamente em nós mesmos em busca da nossa essência, da nossa felicidade, da nossa ampla realização. Que nos sirva a consciência do ‘fim’ para fazer a VIDA de fato valer a pena, pois quando compreendemos o seu verdadeiro valor, finalmente aceitamos a morte.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fazer o bem sem ver a quem

Vivemos numa época de tanto individualismo que há quem não entenda o motivo da caridade. Não raro já expliquei o porquê de ser ouvinte de um aflito, de perdoar uma ofensa, de levar a Palavra a um descrente. Algumas pessoas não vêem sentido em fazer algo por outrem sem que haja uma imediata contrapartida.
Aqueles que desprezam a caridade ao próximo além de demonstrar ingratidão perante a vida, já que certamente um dia também foram ajudados por quem quer que seja (pois ninguém é auto-suficiente), revela ainda o seu egoísmo. Eu mereço/mereci receber ajuda, o outro não.
Somos um coletivo em busca da paz. Enquanto um de nós estiver nas sombras, caberá a todos os outros alcançarem-lhe a luz.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia de Mudança


Mudança não é um desejo. Mudança é atitude.

Quem deseja a mudança, mas não age de forma a promovê-la, no fundo não quer mudar, quer um milagre.

Já ouvi muitas pessoas dizerem “quero acordar de um pesadelo”, “gostaria de dormir e só acordar depois de um longo tempo, quando tudo já estiver resolvido” ou ainda “como eu gostaria que AS COISAS fossem diferentes”.

Quando uma pessoa assume este tipo de postura diante dos problemas está abrindo mão de sua autonomia em relação à própria vida, fica evidente que não está disposta a ser o agente da tão “desejada” mudança. Porém, invariavelmente o único agente capaz de nos modificar somos nós mesmos.

Vale lembrar que não adianta mudarmos de cidade, de emprego, de marido... e repetirmos os mesmos erros. A verdadeira mudança é primeiramente interior. Nada impede que demos chance a um novo trabalho, uma nova relação amorosa, e todas as demais alterações que consideremos necessárias. Mas entrar em novas circunstâncias sem, no mínimo, avaliar a nossa parcela de contribuição para que o fracasso tenha acontecido, é empurrar a sujeira para debaixo do tapete, além de comodamente atirarmos a responsabilidade de todos os erros em cima do outro (o filho, o marido, o chefe, o vizinho...).

A mudança implica em levantarmos da poltrona e jogar fora aqueles últimos cigarros que ficaram no maço e não esperar que eles terminem para depois parar de fumar. Mudar é calar a voz quando houver a irresistível oportunidade de maldizer alguém. É abrir a geladeira e jogar fora tudo aquilo que prejudica a nossa saúde e abrir espaço para uma nova dieta. Mudar é reorganizar os horários do dia e destinar um tempo para o que nos faça bem (se não puder ser diariamente, que seja com a maior freqüência possível). Mudar é aprender que não sabemos tudo, e que existem milhões de coisas interessantes a serem descobertas. E que estas descobertas nos levarão talvez a fazer novas mudanças. Mudanças nas coisas simples ou nas grandes verdades nas quais acreditamos, na qualidade dos relacionamentos ou no autoconhecimento.

Mudar é saudável, rejuvenesce, atrai novas relações, afasta as que já se esgotaram. Mudar é um exercício prazeroso, estimulante, enriquecedor. E para isto não existe um tempo, o dia é hoje e o momento é agora.