“Acabou o veraneio, agora só tem negrão”. Esta frase marcou
lamentavelmente o fim da minha temporada de praia no ano de 2010.
Estávamos organizando a bagagem para a viagem de retorno à
Gravataí. O verão tinha sido ótimo, era o primeiro que passávamos numa pequena
praia dos arredores de Tramandaí onde tínhamos comprado uma casinha de veraneio.
Fizemos novos amigos, levamos os mais chegados e alguns parentes para passar
alguns dias conosco na nova casa do litoral, nos divertimos muito. O verão foi
de fato aproveitado. Então, quando carregávamos as malas para finalmente voltar
pra casa, recebemos a visita de um conhecido, proprietário de uma pequena
imobiliária do local, que veio despedir-se, pois com o fim do carnaval pouquíssimos
veranistas ainda estavam por ali. Entre eles, uma família de etnia negra,
hospedada numa casa bem próxima à nossa. Além dos pais, havia três adolescentes
na casa. Os meninos saiam de carro várias vezes ao dia e sempre com o som
ligado em alto volume, como muitos adolescentes o fazem, já que a pouca fiscalização
no trânsito e o ambiente fantasmagórico (devido à maioria das casas já estarem
desabitadas) são quase um convite ao volante pros que ainda não possuem
carteira de motorista, embora já saibam dirigir.
O referido conhecido estacionou o carro em frente à nossa
casa, desceu, cumprimentou-nos com um sorriso amistoso, disse que sempre
lamentava o fim da temporada de praia. A cidade ficava triste, vazia...
Desejou-nos uma boa viagem, disse que ficaria aguardando o nosso retorno pra
talvez tomarmos um chimarrão (ele e meu marido tinham descoberto alguns
interesses profissionais em comum), retornou para o carro e antes de ir embora
se sentiu a vontade para proferir a “pérola”: ‘Acabou o veraneio, agora só tem
negrão’.
Ficamos mudos diante da ousadia da demonstração de racismo.
Como não esboçamos reação, ele pensou que não tínhamos ouvido ou ‘entendido’ o
que ele dissera e então repetiu a frase, desta vez em tom mais alto. Virei às costas
e entrei na casa. O Robson limitou-se a acenar em despedida para que ele saísse
logo dali.
Eu e meu marido estávamos realmente incomodados. Nunca demos
a ele o direito de fazer revelações sórdidas de preconceito, jamais demos
abertura para que ele se sentisse a vontade para aquilo e confesso que há
bastante tempo não ouvia um comentário de conotação racista tão explícito como
aquele. Imediatamente meu sangue ferveu, senti as bochechas esquentarem, o
coração veio pular no pescoço, as mãos tremiam involuntariamente. Eu estava
PUTA da vida.
Então fiquei pensando em como alguém se arrisca ao expor seu
preconceito, seja em relação ao que for. Eu, visivelmente sou filha de brancos,
sou morena de pele clara, meu rosto não possui traços indígenas, negros ou asiáticos.
Minha etnia tem raízes europeias, apesar de eu não ser loira e também não ter
olhos claros. Mas ele não me conhecia, não sabia da minha história, da minha
vida, das minhas crenças. E se eu tivesse um padrasto ou madrasta negra que
fosse alguém importante para mim? E se eu tivesse um negro como meu melhor
amigo? E se eu tivesse encaminhando documentos para adotar uma criança negra?
Não sou racista, mas também não sou negra. Não sou obrigada
a presenciar ou testemunhar o racismo de quem quer que seja. Sinto-me agredida
quando alguém se concede o direito de manifestar seu racismo na minha presença.
É como uma bofetada na minha cara, pois leio este comportamento da seguinte
forma: se você fosse negra eu não te trataria como estou te tratando, não
consideraria você uma possibilidade de amizade, não seria sincero como penso
que posso ser pelo fato de você ser branca.
Mas quem disse que pelo fato de eu não ser negra eu seja
obrigada a tomar conhecimento do racismo do outro? Quem disse que pelo simples
fato de EU não ser negra, não signifique que eu não seja uma ativista contra o
racismo?
Conheci a realidade das crianças abandonadas nos abrigos e
lá pude constatar de forma prática o que sempre soube na teoria. Os negros
continuam sendo discriminados, massacrados, explorados, diminuídos pelos
brancos. Claro que muitas conquistas já ocorreram, principalmente depois da
criação de leis contra o racismo que criminalizam a prática do racismo. Mas
ainda há um longo caminho a ser percorrido. Quero acreditar que o racismo não
existe mais, estou criando o meu filho de modo a não ressaltar a discriminação,
para que ele talvez tenha a possibilidade de não conhecer o maldito preconceito.
Mas quando me deparo com um animal irracional manifestando de forma sarcástica
o seu lado podre, percebo que este mal está longe de ser realmente banido.
Queria muito não ter
que falar em preconceito para o meu pequeno, gostaria que esta palavra fosse
abolida do dicionário, sei o quanto é nocivo ter que lutar contra algo
invisível, dissimulado, que fica nas entrelinhas. Mas estou convicta de que
terei que fazê-lo. Lamento mesmo.
Meu manifesto, obviamente não se limita ao racismo, mas se
estende a todo e qualquer preconceito. Eu não preciso ser negra pra me reservar
o direito de não ver exposto o racismo do outro, não preciso ser declaradamente
lésbica para ter o direito de não ser exposta a homofobia, não preciso ser
pobre para não ter que aturar a soberba dos ricos. Eu simplesmente tenho o
direito de não receber ou, ao menos, não ser obrigada a presenciar qualquer
manifestação de preconceito.
Quando alguém deliberadamente manifesta o seu preconceito
diante de outra pessoa (ainda que ela não seja o alvo da sua bestialidade), ela
está lançando um desafio. Quem faz isto obriga seu interlocutor a receber sua
influência negativa em relação ao tema. Gente!!! Racismo é crime!!! Porque
cargas d’água alguém se sente no direito de continuar disseminando ideias
criminosas??? Isto é uma afronta à moralidade! Sinto-me profundamente agredida como
ser humano, como cidadã que conquistou constitucionalmente o direito de ver
banidos os manifestos racistas.
No meu entendimento todo o preconceito pode ser definido
como uma falha de caráter, pois em nome dele são gerados atos de violência com os
mais variados níveis de gravidade, atingindo não só o seu objeto de
discriminação, mas ameaçando a paz social e a convivência respeitosa a qual
TODOS temos direito. O preconceituoso cria em torno de si um clima de hostilidade
gratuita em relação ao alvo da sua opinião discriminatória. Em nome do
preconceito, todos são submetidos a uma tensão absolutamente desnecessária e
irracional, já que o preconceituoso está constantemente disposto a subjugar o
outro de forma pré-concebida, sem critérios concretos e racionais de
julgamento.
Eu tenho o DIREITO de não tolerar o racismo ou qualquer
outro tipo de preconceito!
Qualquer um que se manifeste na minha presença
contrariamente a isto está invadindo o meu espaço intelectual, está poluindo
moralmente o meu ambiente, está querendo entregar a mim a sua pior versão. EU
PROTESTO!!!!!
Racistas, homofóbicos e qualquer outro tipo de ser preconceituoso,
reservem para vocês mesmos o seu veneno. Não nos obriguem a compartilhar de
suas misérias e de sua irracionalidade. NINGUÉM é obrigado a ouvir suas
atrocidades! Parem de se expor ao ridículo!
Parem de nos expor às suas patologias morais!
Tolerância é um dever, mas acima de tudo é um DIREITO de
todos. Não tentem nos subtraí-lo, obrigando-nos a abrir mão de exercê-lo em
relação a vocês.