Filhos especiais nos tornam pessoas especiais. Aprendemos
através dos seus limites o quanto é perfeita a natureza e nem nos damos conta
da sua magnitude. Pois ao invés de nos determos no “defeito”, nos apegamos a
tudo o que neles “funciona perfeitamente”.
Um dia, não lembro por que motivo encostei o ouvido no
peito do meu filho e ouvi as batidas do seu coração. Eu sempre soube que ele
funcionava perfeitamente, mas o pulso que percebi em cada batida era tão
vigoroso que ali reconheci a gigantesca força da vida. Aquele coração perfeito
não conhecia o limite do corpo. Ele funcionava harmoniosamente a despeito da
paralisia cerebral, das crises convulsivas, das deformidades ortopédicas que o
tempo se encarregava de moldar no seu corpo. A vida ignora a dor, como a onda
ignora o repuxo da maré. Ela avança sobre ele, desafia a sua rebeldia em querer
carregar as águas para o lado oposto e simplesmente derrama-se sobre a areia
branca, cumprindo o seu destino.
Os filhos especiais nos ensinam a valorizar pequenas conquistas,
por menores que sejam. Nos mostram um mundo de grandes feitos onde a trivial
‘normalidade’ jamais nos revelaria.
Somos sim mães superprotetoras, brigamos como leoas pelos
seus direitos, questionamos a medicina como se os médicos de nada soubessem, desafiamos
os seus conhecimentos exigindo provas do maldito ‘irreversível’. Pesquisamos
tratamentos, contestamos as previsões negativas, nos agarramos ao otimismo
quando a ciência nos indica um futuro nebuloso. Vivemos um dia de cada vez e
todos como se fosse o último. Não fazemos planos para longos períodos, pois a
fatalidade pode nos surpreender na próxima complicação. Aprendemos a renunciar
projetos, recusar alguns convites, virar a casa de pernas pro ar em busca do
melhor ambiente para eles. Viramos escravas do relógio, controlamos a dieta, a
medicação, os dias que se passaram sem que eles evacuassem (para intervir com
laxantes, caso necessário). Não os confiamos a ninguém, embora muitas vezes
tenhamos que deixá-los sob os cuidados de outra pessoa. Mas confiar... não dá,
ninguém os conhece como nós.
Vivemos constantes paradoxos. Para nós, mães de filhos
especiais, nunca chega a hora de deixar de dar colo, apesar do desenvolvimento
dos seios ou do crescimento do bigodinho, do surgimento dos pelos pubianos e
das espinhas que invadem seus rostinhos. Eles, aos nossos olhos, serão sempre
bebês que precisam ser carregados. No colo, na alma...
No fundo, são eles quem nos
carregam, é deles que recebemos a força necessária para superarmos todos os
obstáculos, são eles quem nos transmitem os grandes ensinamentos. Eles nos
tornam fortes como rochas, por eles descobrimos que o único motivo da
existência de um limite é a sua superação. Por eles nos tornamos mais humildes,
menos mesquinhos, maiores na tolerância, na força física (porque o esforço não
é pouco), na paciência e na perseverança. Filhos especiais são capazes de
realizar verdadeiros milagres.
09/11/12
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