sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Filhos Especiais


Filhos especiais nos tornam pessoas especiais. Aprendemos através dos seus limites o quanto é perfeita a natureza e nem nos damos conta da sua magnitude. Pois ao invés de nos determos no “defeito”, nos apegamos a tudo o que neles “funciona perfeitamente”.

Um dia, não lembro por que motivo encostei o ouvido no peito do meu filho e ouvi as batidas do seu coração. Eu sempre soube que ele funcionava perfeitamente, mas o pulso que percebi em cada batida era tão vigoroso que ali reconheci a gigantesca força da vida. Aquele coração perfeito não conhecia o limite do corpo. Ele funcionava harmoniosamente a despeito da paralisia cerebral, das crises convulsivas, das deformidades ortopédicas que o tempo se encarregava de moldar no seu corpo. A vida ignora a dor, como a onda ignora o repuxo da maré. Ela avança sobre ele, desafia a sua rebeldia em querer carregar as águas para o lado oposto e simplesmente derrama-se sobre a areia branca, cumprindo o seu destino.

Os filhos especiais nos ensinam a valorizar pequenas conquistas, por menores que sejam. Nos mostram um mundo de grandes feitos onde a trivial ‘normalidade’ jamais nos revelaria.

Somos sim mães superprotetoras, brigamos como leoas pelos seus direitos, questionamos a medicina como se os médicos de nada soubessem, desafiamos os seus conhecimentos exigindo provas do maldito ‘irreversível’. Pesquisamos tratamentos, contestamos as previsões negativas, nos agarramos ao otimismo quando a ciência nos indica um futuro nebuloso. Vivemos um dia de cada vez e todos como se fosse o último. Não fazemos planos para longos períodos, pois a fatalidade pode nos surpreender na próxima complicação. Aprendemos a renunciar projetos, recusar alguns convites, virar a casa de pernas pro ar em busca do melhor ambiente para eles. Viramos escravas do relógio, controlamos a dieta, a medicação, os dias que se passaram sem que eles evacuassem (para intervir com laxantes, caso necessário). Não os confiamos a ninguém, embora muitas vezes tenhamos que deixá-los sob os cuidados de outra pessoa. Mas confiar... não dá, ninguém os conhece como nós.

Vivemos constantes paradoxos. Para nós, mães de filhos especiais, nunca chega a hora de deixar de dar colo, apesar do desenvolvimento dos seios ou do crescimento do bigodinho, do surgimento dos pelos pubianos e das espinhas que invadem seus rostinhos. Eles, aos nossos olhos, serão sempre bebês que precisam ser carregados. No colo, na alma...

            No fundo, são eles quem nos carregam, é deles que recebemos a força necessária para superarmos todos os obstáculos, são eles quem nos transmitem os grandes ensinamentos. Eles nos tornam fortes como rochas, por eles descobrimos que o único motivo da existência de um limite é a sua superação. Por eles nos tornamos mais humildes, menos mesquinhos, maiores na tolerância, na força física (porque o esforço não é pouco), na paciência e na perseverança. Filhos especiais são capazes de realizar verdadeiros milagres.

            09/11/12

Nenhum comentário:

Postar um comentário