sexta-feira, 16 de novembro de 2012

INTOLERÂNCIA ao racismo!


“Acabou o veraneio, agora só tem negrão”. Esta frase marcou lamentavelmente o fim da minha temporada de praia no ano de 2010.

Estávamos organizando a bagagem para a viagem de retorno à Gravataí. O verão tinha sido ótimo, era o primeiro que passávamos numa pequena praia dos arredores de Tramandaí onde tínhamos comprado uma casinha de veraneio. Fizemos novos amigos, levamos os mais chegados e alguns parentes para passar alguns dias conosco na nova casa do litoral, nos divertimos muito. O verão foi de fato aproveitado. Então, quando carregávamos as malas para finalmente voltar pra casa, recebemos a visita de um conhecido, proprietário de uma pequena imobiliária do local, que veio despedir-se, pois com o fim do carnaval pouquíssimos veranistas ainda estavam por ali. Entre eles, uma família de etnia negra, hospedada numa casa bem próxima à nossa. Além dos pais, havia três adolescentes na casa. Os meninos saiam de carro várias vezes ao dia e sempre com o som ligado em alto volume, como muitos adolescentes o fazem, já que a pouca fiscalização no trânsito e o ambiente fantasmagórico (devido à maioria das casas já estarem desabitadas) são quase um convite ao volante pros que ainda não possuem carteira de motorista, embora já saibam dirigir.

O referido conhecido estacionou o carro em frente à nossa casa, desceu, cumprimentou-nos com um sorriso amistoso, disse que sempre lamentava o fim da temporada de praia. A cidade ficava triste, vazia... Desejou-nos uma boa viagem, disse que ficaria aguardando o nosso retorno pra talvez tomarmos um chimarrão (ele e meu marido tinham descoberto alguns interesses profissionais em comum), retornou para o carro e antes de ir embora se sentiu a vontade para proferir a “pérola”: ‘Acabou o veraneio, agora só tem negrão’.

Ficamos mudos diante da ousadia da demonstração de racismo. Como não esboçamos reação, ele pensou que não tínhamos ouvido ou ‘entendido’ o que ele dissera e então repetiu a frase, desta vez em tom mais alto. Virei às costas e entrei na casa. O Robson limitou-se a acenar em despedida para que ele saísse logo dali.

Eu e meu marido estávamos realmente incomodados. Nunca demos a ele o direito de fazer revelações sórdidas de preconceito, jamais demos abertura para que ele se sentisse a vontade para aquilo e confesso que há bastante tempo não ouvia um comentário de conotação racista tão explícito como aquele. Imediatamente meu sangue ferveu, senti as bochechas esquentarem, o coração veio pular no pescoço, as mãos tremiam involuntariamente. Eu estava PUTA da vida.

Então fiquei pensando em como alguém se arrisca ao expor seu preconceito, seja em relação ao que for. Eu, visivelmente sou filha de brancos, sou morena de pele clara, meu rosto não possui traços indígenas, negros ou asiáticos. Minha etnia tem raízes europeias, apesar de eu não ser loira e também não ter olhos claros. Mas ele não me conhecia, não sabia da minha história, da minha vida, das minhas crenças. E se eu tivesse um padrasto ou madrasta negra que fosse alguém importante para mim? E se eu tivesse um negro como meu melhor amigo? E se eu tivesse encaminhando documentos para adotar uma criança negra?

Não sou racista, mas também não sou negra. Não sou obrigada a presenciar ou testemunhar o racismo de quem quer que seja. Sinto-me agredida quando alguém se concede o direito de manifestar seu racismo na minha presença. É como uma bofetada na minha cara, pois leio este comportamento da seguinte forma: se você fosse negra eu não te trataria como estou te tratando, não consideraria você uma possibilidade de amizade, não seria sincero como penso que posso ser pelo fato de você ser branca.

Mas quem disse que pelo fato de eu não ser negra eu seja obrigada a tomar conhecimento do racismo do outro? Quem disse que pelo simples fato de EU não ser negra, não signifique que eu não seja uma ativista contra o racismo?

Conheci a realidade das crianças abandonadas nos abrigos e lá pude constatar de forma prática o que sempre soube na teoria. Os negros continuam sendo discriminados, massacrados, explorados, diminuídos pelos brancos. Claro que muitas conquistas já ocorreram, principalmente depois da criação de leis contra o racismo que criminalizam a prática do racismo. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Quero acreditar que o racismo não existe mais, estou criando o meu filho de modo a não ressaltar a discriminação, para que ele talvez tenha a possibilidade de não conhecer o maldito preconceito. Mas quando me deparo com um animal irracional manifestando de forma sarcástica o seu lado podre, percebo que este mal está longe de ser realmente banido.

 Queria muito não ter que falar em preconceito para o meu pequeno, gostaria que esta palavra fosse abolida do dicionário, sei o quanto é nocivo ter que lutar contra algo invisível, dissimulado, que fica nas entrelinhas. Mas estou convicta de que terei que fazê-lo. Lamento mesmo.

Meu manifesto, obviamente não se limita ao racismo, mas se estende a todo e qualquer preconceito. Eu não preciso ser negra pra me reservar o direito de não ver exposto o racismo do outro, não preciso ser declaradamente lésbica para ter o direito de não ser exposta a homofobia, não preciso ser pobre para não ter que aturar a soberba dos ricos. Eu simplesmente tenho o direito de não receber ou, ao menos, não ser obrigada a presenciar qualquer manifestação de preconceito.

Quando alguém deliberadamente manifesta o seu preconceito diante de outra pessoa (ainda que ela não seja o alvo da sua bestialidade), ela está lançando um desafio. Quem faz isto obriga seu interlocutor a receber sua influência negativa em relação ao tema. Gente!!! Racismo é crime!!! Porque cargas d’água alguém se sente no direito de continuar disseminando ideias criminosas??? Isto é uma afronta à moralidade! Sinto-me profundamente agredida como ser humano, como cidadã que conquistou constitucionalmente o direito de ver banidos os manifestos racistas.

No meu entendimento todo o preconceito pode ser definido como uma falha de caráter, pois em nome dele são gerados atos de violência com os mais variados níveis de gravidade, atingindo não só o seu objeto de discriminação, mas ameaçando a paz social e a convivência respeitosa a qual TODOS temos direito. O preconceituoso cria em torno de si um clima de hostilidade gratuita em relação ao alvo da sua opinião discriminatória. Em nome do preconceito, todos são submetidos a uma tensão absolutamente desnecessária e irracional, já que o preconceituoso está constantemente disposto a subjugar o outro de forma pré-concebida, sem critérios concretos e racionais de julgamento.

Eu tenho o DIREITO de não tolerar o racismo ou qualquer outro tipo de preconceito!

Qualquer um que se manifeste na minha presença contrariamente a isto está invadindo o meu espaço intelectual, está poluindo moralmente o meu ambiente, está querendo entregar a mim a sua pior versão. EU PROTESTO!!!!!

Racistas, homofóbicos e qualquer outro tipo de ser preconceituoso, reservem para vocês mesmos o seu veneno. Não nos obriguem a compartilhar de suas misérias e de sua irracionalidade. NINGUÉM é obrigado a ouvir suas atrocidades! Parem de se expor ao ridículo!

Parem de nos expor às suas patologias morais!

Tolerância é um dever, mas acima de tudo é um DIREITO de todos. Não tentem nos subtraí-lo, obrigando-nos a abrir mão de exercê-lo em relação a vocês.

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