Talvez o que nos impeça de “aceitar” a morte seja o fato de
nos pretendermos acima da natureza. A condição de animal racional, por vezes,
ilusoriamente nos distancia do pertencimento ao ciclo da vida.
Temos a possibilidade de compreender, analisar, planejar,
executar e avaliar a nossa existência, diferentemente dos outros animais, e por
isso passamos a acreditar erroneamente que não somos assim ‘tão animais’ quanto
os demais. E este distanciamento, que a racionalidade nos faculta, é justamente
o que nos faz ‘pensar’ que deveríamos estar acima da possibilidade da morte. Um
paradoxo, já que a própria vida nos impõe este limite.
Só não está sujeito à morte, aquele que não tem vida. Logo,
não aceitar a morte significa não aceitar a vida propriamente dita em toda a
sua complexidade, não compreender de fato a sua beleza, seu infinito recomeço e
as suas constantes transformações. Não aceitamos porque não queremos sair de
cena, deixar de ser o eterno predador e tornar-nos a presa na cadeia alimentar.
Claro que nesta questão estão envolvidos muitos outros
fatores como o medo do desconhecido (já que ninguém ‘voltou’ para contar o que
encontrou após morrer), a religiosidade e um ‘julgamento pós-morte’ que a fé
nos sinaliza, deixar a convivência com nossos afetos, abandonar os bens
materiais, ser desapropriado do próprio corpo, saber que as sensações da vida
física não serão mais experimentadas (dores e prazeres), mergulhar no ciclo
como fornecedor e não mais como cliente.
Todas as variantes que circundam a morte são inegavelmente
irreversíveis e nada podemos em relação a elas. No fundo talvez seja isto o que
nos cause tanto espanto. Mas então eu pergunto: E quanto à vida, na qual tudo
podemos e, pensando que haverá sempre um amanhã, acabamos nunca realizando o
que tanto gostaríamos? E todas as possibilidades que deixamos passar enquanto
desprezamos a morte, embora a temamos terrivelmente?
A reflexão que proponho não é quanto à impotência que a
morte implacavelmente nos impõe, mas sim às infinitas opções que a vida nos apresenta
a cada ano, cada dia, cada segundo.
Todos vamos morrer, mas quantos de nós seremos capazes de
deixar uma saudade e uma admiração coletivas e não apenas nos familiares ou
amigos próximos? Quantos poderão deixar um legado de realizações, de superação,
de construção de algo relevante para si, para os seus ou para toda a
humanidade? Perceber que somos finitos deveria nos servir como combustível para
a vida. Aceitar que um dia não mais seremos deveria fazer-nos valorizar ainda
mais o que hoje somos. Saber que o jogo acaba deveria fazer-nos ser exímios
jogadores.
Tenho minhas crenças em relação à criação, à vida e à
morte, assim como a grande maioria das pessoas também as tem. Respeito e até
aplaudo a pluralidade de credos. Mas objetivamente isto passa ao largo do
concreto, do palpável e do ‘comprovado cientificamente’. Discutir teorias não
nos levaria a lugar nenhum, até porque nenhum de nós poderá comprovar a sua
crença enquanto estiver vivo. Mas ainda àqueles que crêem numa vida após a
morte e na reencarnação, para eles esta existência (a atual encarnação) é também
uma possibilidade única e que não se repetirá jamais. Logo, proponho que a
morte não seja vista como um tormento, um castigo ou uma ameaça da vida ou de
Deus. Sugiro que ela nos traga a consciência do hoje, do agora. Que ela nos
sirva para mergulharmos mais profundamente em nós mesmos em busca da nossa
essência, da nossa felicidade, da nossa ampla realização. Que nos sirva a
consciência do ‘fim’ para fazer a VIDA de fato valer a pena, pois quando
compreendemos o seu verdadeiro valor, finalmente aceitamos a morte.
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