Muito raramente, não com a frequência que eu gostaria, o
Carlinhos aceita ingerir algum alimento via oral.
Mesmo usando sonda há um ano, até hoje eu ofereço refeições
para que ele possa sentir o gosto de um docinho ou salgado - tudo em
consistência de iogurte, devidamente processado e sem nenhum pedacinho sólido,
pra que ele não se engasgue. Claro que não faço isto seguidamente, porque sei o
quanto é difícil para ele a função da deglutição. E mesmo sendo raramente, nem
sempre ele aceita bem, começa a tossir, demonstra sentir náusea, e então
imediatamente eu paro.
Mas hoje ele aceitou bem, comeu purê de batatas com caldo de
feijão. Uma quantidade pequena pra um adolescente de 14 anos, depois tive que
completar a refeição com meia dose de dieta pela gastrostomia.
Mas é tããããããããããão gratificante vê-lo comendo, que mal
posso conter minha alegria. Fico olhando ele comer sorrindo, falando, babando
(kkkkk) – tudo junto, ao mesmo tempo. É muito bom vê-lo sentindo prazer em se
alimentar, sentir o gosto de alguma coisa que não só o creme dental. Naquele
momento esqueço que ele tem uma perfuração na barriga e mato a saudade de
quando aquilo não era necessário.
Fico toda boba, vendo a independência que ele tem naquele
momento, de poder ele mesmo engolir o que irá para o estômago. Acho o
máximo!!!!!
Estes momentos não tem preço, são realmente indescritíveis.
Não sei quando ele aceitará novamente, mas continuarei
tentando. Por ele e por mim. Instinto de mãe, certamente. Aquela ‘gana’ que a
gente tem de poder alimentar o filho. A psicologia deve ter resposta pra isso.
Hehehe
Passado o momento de euforia, fiquei lembrando das campanhas
estilo “Adote um bichinho de estimação”, que a gente toda a hora vê na mídia.
As exposições de animaizinhos sem pedigree, que esperam um dono ou dona pra
finalmente ganhar um lar.
Acho louvável mesmo que movimentos assim sejam feitos. Adoro
os bichanos, embora atualmente minha rotina não permita ter um em casa.
Daí fiquei pensando... Porque será que não existem Campanhas
de Adoção de Pessoas?
Claro que gente não é bicho, seria ridículo conceber a idéia
de exposição de pessoas para adoção...
Mas porque será que o Estado não investe maciçamente nesta
idéia? Os abrigos cheios de crianças e adolescentes desejando ardentemente uma
chance... e nada.
Sempre que converso sobre adoção com alguém que não tenha
tido nenhum tipo de contato com esta realidade, invariavelmente tenho que
desmistificar uma série de conceitos, esclarecer as regras do jogo, ignoradas
por quase toda a população.
Isto me fez pensar que não existe uma iniciativa de política
positiva em relação a este tema.
Lamentável...
Mas eu, de minha parte, deixo aqui o registro da minha
singela, porém MARAVILHOSA experiência de vida e o meu incentivo a todos
aqueles que tem vontade de adotar uma criança ou um adolescente, negro ou
branco, saudável ou portador de alguma deficiência, menino ou menina, sozinho
ou pertencente a um grupo de irmãos:
ADOTE UMA PESSOA!
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