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| Ivoti - 08/09/2012 (Minha família) |
Já estava mais do que na hora de fazer uma “limpa” na pasta
do Carlinhos. Havia ali pouco mais de nove anos de história. Na semana passada,
revirando documentos pra anexar ao processo de solicitação à Farmácia do Estado
o fornecimento da dieta dele, finalmente criei coragem e me debrucei sobre o
mar de papéis.
Lembrei momentos que, quando vividos, achei que nunca
conseguiria esquecer. Ri, chorei, algumas coisas lamentei, me orgulhei...
enfim, revi todo o passado e refresquei a memória visitando os caminhos que
percorremos pra chegar até aqui.
Comecei pela sessão de documentos pessoais. Tudo estava
organizado em ordem cronológica, pra facilitar a pesquisa sempre que
necessário. Então pra iniciar, “Cartão da Criança” – uma espécie de carteirinha
de vacinação que o bebê ganha ainda no hospital. O apgar (nota atribuída ao
recém-nascido) nove sempre me deu frio na espinha. Numa escala de 0 a 10, nove
é uma excelente nota. Ele havia nascido perfeito: batimentos cardíacos,
respiração, musculatura, movimentos... tudo lá, funcionando perfeitamente. O
hospital aonde meu filhote veio ao mundo fica há poucas quadras da casa onde
hoje moro, talvez por ironia do destino.
Ainda analisando a carteirinha, já é possível começar a
entender um pouco do drama que marcou de forma definitiva a integridade física
e mental do meu pequeno. A mãe biológica, na época com 14 anos, só havia ido ao
hospital para dar a luz ao menino, não foi feito pré-natal. Ela já era mãe de
uma menina de um ano de idade e, nos anos seguintes, a saga de “um filho por
ano” foi a opção de vida daquela adolescente.
Em seguida a primeira certidão de nascimento, constavam ali
os nomes dos pais e avós biológicos. O sobrenome anterior denota uma vida tão
distante da realidade atual que tive a impressão de estar segurando nas mãos o documento
de uma outra pessoa, não do meu Carlinhos. Junto havia ainda a antiga cédula de
identidade e cartão CPF, tudo com seus antigos dados. É surreal saber que meu
pequeno, um dia, não foi meu.
Logo, vieram os prontuários médicos. Fôlego... perco ele
toda a vez que leio o que está escrito nos papéis amarelados do Hospital da
Criança Santo Antonio – Sta. Casa. A internação com 30 dias de vida deixa claro
o descaso da família. Ele havia se afogado com o leite havia alguns dias e
desde então apresentava muita tosse. Após um curto período de internação (onde
não fica muito claro o motivo) foi mandado embora. Aos seis meses de vida
chegara novamente ao hospital com “mal convulsivo”, espástico, apresentava
hematomas na cabeça ocasionados em épocas diversas – este é o registro. A mãe,
descrita como pessoa agitada, nervosa, demonstrava inquietação e pedia
constantemente para ir embora. Foi encaminhada ao serviço social do hospital e,
depois disto, não há relatos do procedimento do hospital em relação a ela.
A tomografia detectou um trauma na região fronto temporal,
o diagnóstico de paralisia cerebral havia sentenciado o pequeno Carlinhos a uma
vida muito diferente da grande maioria das crianças. (Sinto um aperto na região
do estômago que não conseguiria descrever nem com todas as palavras da língua
portuguesa. Não existe um termo que defina o buraco negro que se abre em minha
mente quando penso nisto.) Vamos em frente...
Após um mês de internação na UTI o Carlinhos teve alta. Foi
pra casa com a mesma mãe e mesmo pai que o trouxeram, mas agora além dos dois,
as seqüelas cerebrais também o acompanhariam.
Dizem que as mães biológicas que dão à luz crianças
especiais, não raro sentem-se “culpadas” inconscientemente por terem “gerado um
bebê que nasceu com problemas”, talvez instinto. Não sei se esta teoria
realmente procede. Mas posso garantir que nós, mães adotivas de crianças
especiais cujos problemas dos filhos são decorrentes de maus tratos,
negligência, uso de medicação em tentativa de aborto, uso de drogas durante a
gestação etc, em alguns momentos nos sentimos sim culpadas. Culpadas por termos
chegado tarde, por não termos podido evitar, por não estarmos presentes no
momento em que eles mais precisaram de proteção, por sabermos que aquele
precioso momento que nunca mais o tempo trará de volta marcou de forma
definitiva a vida de nossos amados filhos, enquanto nós nem sabíamos que eles
existiam. (Sei que isto é insano, mas existem estes momentos. Só estou expondo
aqui o que de fato acontece.)
Passada a sessão que chamo “carinhosamente” de “vida
anterior”, a próxima é a que traz as primeiras cores da pasta até então cinza,
devido ao peso dos fatos: o folder do Instituto Amigos de Lucas. Lá
oficializamos o vínculo do Apadrinhamento Afetivo. Após 4 anos de convivência
com a família de origem, Carlinhos foi para um abrigo de Porto Alegre – o Lar
Santo Antonio dos Excepcionais. Quando o conhecemos ele já tinha 5 anos, estava
há quase 12 meses no abrigo. Lembrei do dia em que nos conhecemos, da
indescritível alegria que senti quando vi aquele menino pela primeira vez. Meu
marido experimentou a mesma sensação que eu ao vê-lo. O apadrinhamento durou
dois anos. Buscávamos Carlinhos nas sextas-feiras à noite e o levávamos de
volta nas segundas-feiras pela manhã. Após estes dois anos, quando ele já
estava com sete, buscamos o caminho da adoção. Estas lembranças vieram à tona
graças ao “Termo de Guarda Especial” concedido pelo Juiz aos participantes do
programa de Apadrinhamento Afetivo, ao “Termo de Guarda” que recebemos quando
ele veio morar conosco e finalmente a nova Certidão de Nascimento, quando da
efetivação legal da adoção.
Lembrei as adaptações que fizemos na casa, nos horários, no
trabalho, na vida social, na rotina, nos nossos hábitos alimentares... e por aí
vai.
Sessão INSS – esta me causa certa indignação. Quando
adotamos nosso pequeno, tivemos que informar o governo do que havíamos feito.
Isto ocasionou a suspensão do benefício (de um salário mínimo) que ele recebia
antes de ser adotado. Pela lei brasileira, as pessoas portadoras de deficiência
só tem direito ao LOAS (o tal benefício) se a renda familiar por pessoa representar menos que ¼ de salário
mínimo. Ou seja, se a renda da família for de um salário mínimo e a família for
composta por 4 pessoas, o deficiente não tem direito ao benefício. Se tiver 5,
o direito é concedido. Nunca precisamos do benefício pra custear as despesas do
Carlinhos, mas acho realmente injusto o critério. Fico pensando no custo que
ele representaria ao estado se tivesse permanecido no abrigo. Além do salário,
que continuaria recebendo, dependeria do SUS para ter acesso a atendimento de
saúde, seria beneficiado por doações de pessoas físicas e empresas que deduzem
do imposto de renda os valores que doam a instituições beneficentes, entre
tantas outras despesas diretas e indiretas que os abrigos (mesmo as ONGs)
“repassam” ao governo. Mas isto é assunto pra muitos argumentos, não é este o
momento para isto.
A próxima sessão foi Plano de Saúde: exames, laudos,
diagnósticos, receitas de medicação... Ali estavam as brigas judiciais e
extra-judiciais que travamos com os planos a fim de garantir os direitos ao
atendimento que ele precisou e que os planos, argumentando “doença
pré-existente”, não queriam cobrir. Vencemos tudo, embora ainda não tenhamos
recebido duas indenizações que ainda tramitam na justiça.
A esta altura da separação entre o que ficaria e o que
seria descartado, as pilhas já estavam enormes. Os documentos da “vida anterior”
foram devidamente inutilizados, assim como as solicitações médicas muito
antigas que já tinham sido atendidas. O restante voltou pra pasta, tudo
novamente organizado, agora mais arejadamente.
No final, cheguei ao recorte de jornal que mostrava a
reportagem feita logo depois da adoção, relatando o caso e traçando um paralelo
entre a vida real e a ficção que a novela das oito abordava na época. Em
“Páginas da Vida” a atriz Regina Duarte também adotou uma menina especial – era
um caso de Síndrome de Down. Lembrei o quanto ri ao ler a expressão “mãe
coragem” que me atribuíram na ocasião da matéria. Logo eu, que tive uma
adolescência tão “movimentada”, pra não ficar chato descrever aqui os detalhes
de tudo o que aprontei.
Então
percebi que naquele momento eu tinha realmente me tornado uma pessoa adulta. A
adoção foi um divisor de águas não só na vida do Carlinhos, mas na minha e na
do meu marido também. E não só por termos nos tornado pai e mãe. Eu havia
assumido um compromisso que era muito maior do que eu. Tinha a responsabilidade
de CUIDAR de alguém. Cuidar indefinidamente, já que não sabia o que o futuro me
reservava. Cuidar por um período indeterminado, pois não sabemos por quanto tempo
Deus nos concederá a graça de termos um anjo em nosso lar. Cuidar de alguém
mais do que a mim mesma, pois para uma mãe a vida de um filho vale muito mais
que a sua. Amar, amar, amar... e mais amar.
Amar infinitamente é o que me possibilita ter percorrido
todo este caminho. Amar esta criança com devoção, com todas as minhas forças,
de todo o meu coração é o que me deixa inteira pra seguir em frente e ter a
certeza de que independente do que acontecer, todos os obstáculos serão
superados.
Até quando? Não sei. Nem quero saber. Costumo sempre dizer
que quero apenas que meu filho esteja bem durante o tempo em que ele estiver
aqui. Sei que ele tem uma missão a cumprir, que nada de tudo o que ocorreu foi
por acaso. Acredito piamente que para tudo existe uma ótima razão.
Vejo nele, hoje aos 14 anos, um “homem” forte, corajoso,
determinado a nunca desistir, resignado, persistente por nunca ter sucumbido às
suas mazelas. Sei que esta provação exige muito dele e que ele não tem
decepcionado o seu propósito, mantendo-se firme, sorrindo para o mundo. Sei
também que no dia em que esta missão chegar ao fim não seria justo que eu
quisesse mantê-lo aqui além do tempo necessário. Sei que ele um dia será livre,
receberá de volta a sua consciência, poderá flutuar por onde quiser, conseguirá
falar, se expressar, será novamente senhor de si. Neste dia ele não dependerá
de mais ninguém, será autossuficiente, estará inteiro de novo. Só então a
missão estará encerrada.
O momento da despedida Deus é quem sabe, confio na Sua
misericórdia e sei que Ele não me faltará se eu fraquejar. Enquanto isso,
aproveito cada momento, cada dia que Ele me concede o privilégio de ser a Mãe
do Carlinhos.