sábado, 29 de dezembro de 2012

Em 2013...


Queridos amigos, é com imensa alegria que me despeço de 2012. Não que tenham faltado dificuldades, dúvidas, momentos difíceis, desafios... mas porque no final, deu tudo certo. E o que ainda não deu certo, é porque ainda não acabou.

Desejo que em 2013 venham os novos obstáculos, só assim terei a chance de realizar novas superações. Desejo que as dificuldades cheguem, sempre acompanhadas de otimismo. Que os percalços peguem ficha, e venha um de cada vez, como tem sido sempre. Desejo que Deus continue me dando forças para apoiar aqueles que necessitam de mim e que com cada irmão que se aproxima eu aprenda alguma coisa.

Desejo reconhecer minha parcela de responsabilidade em tudo aquilo que não der certo, que eu pare de acusar o outro e faça ao menos a minha parte. Desejo que Ele coloque em meu caminho oportunidades diárias de fazer o bem, de cultivar a paz e semear o amor.

Desejo lucidez, humildade, esperança... ser melhor a cada dia. Encarar cada problema como uma fonte de aprendizado. Sair de cada um deles mais madura e com mais sabedoria. Entender que para tudo o que acontece existe uma razão, fazer o meu melhor, e compreender que as coisas que não estão ao meu alcance não me cabem resolver. Estas, eu entrego a Deus.

Desejo levar adiante os projetos que me fazem feliz, colher os frutos do meu trabalho e dividir com todos que de mim se aproximarem.

Desejo que em 2013 eu possa agir mais, construir mais, evoluir mais... e não simplesmente ficar aguardando que “algo de bom” me aconteça.

A vida é o que nós quisermos que ela seja.

Um feliz 2013!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Amor de Casamento

Pertenço à geração dos primeiros filhos de pais separados, não só de fato, mas também legalmente. Porém, ainda sem a “caridosa” lei da pensão alimentícia. (Até se ouvia falar que se a mulher pedisse judicialmente, o ex-marido seria obrigado a contribuir financeiramente para o sustento dos filhos, mas não se sabia exatamente o “caminho das pedras”. Então minha mãe, assim como tantas outras, assumiu sozinha toda a responsabilidade de “mulher separada”.) Minha geração (especialmente nós, hoje mulheres) viveu experiências ímpares que carregamos para a vida toda.
Vimos nossas mães irem à luta, juntarem-se aos cacos de casamentos fracassados, procurarem emprego e sustentarem a família. Assistimos estas guerreiras enfrentarem jornadas duplas de trabalho, ganhando menos que os homens em cargos iguais. Aprendemos a cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, cuidar dos irmãos menores enquanto elas tratavam de garantir o pão.
Ali entendemos a necessidade de estudar, de ter uma profissão, de ser “alguém” na vida e não depender de “homem” pra nada. Nos embrutecemos para o amor, deixamos de acreditar no “para sempre” e entendemos que nossa força é a única que nunca poderá nos abandonar.
Ainda assim, queríamos ser amadas, realizar o sonho da princesa que encontra o príncipe encantado, mesmo sabendo que ele não existe.
Perdemos a virgindade antes do casamento, tivemos acesso às drogas, bebemos além da conta... mas a mãe era poupada dos detalhes sórdidos.
Estudamos, algumas de nós tiveram filhos antes da hora, nunca chegaram a casar...
Outras de nós casaram, prometeram a si mesmas não cometer os mesmos erros dos casamentos dos pais. E conseguiram, mas cometeram outros... alguns sobreviveram, outros, a exemplo dos pais, naufragaram. É impossível não cometer erros, ainda mais para nós, a quem a lógica do casamento nunca fez muito sentido. Não entendemos como mulheres maravilhosas como as nossas mães foram deixadas por homens tão medíocres quanto os nossos pais. Qual o modelo a seguir? Como alcançar o sucesso na relação a dois? Inúmeras perguntas para as quais não tínhamos respostas...
Fomos educadas, orientadas, recebemos limites (e quantos...), sabemos fazer tudo o que uma dona de casa deve saber, presenciamos a reinvenção do conceito de família... Mas queremos mais, queremos ter direito à felicidade com ou sem parceiro, não queremos carregar a nostalgia de nossas mães.
Queremos ser livres. Livres dos traumas para vivermos um grande amor.
E mesmo que este amor não seja eterno, que não nos faça amargas, não nos deixe marcas tão profundas que não sejamos mais capazes de amar outra vez.
Queremos um parceiro, não um marido. Queremos cumplicidade, não dependência. Queremos equilíbrio, não submissão. Queremos amor, não só um casamento.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Desejos pra todos


Desejo a você tudo o que lhe faça feliz.

Que você multiplique suas qualidades, que invista nos seus talentos

Que busque a paz e a sabedoria como companheiras de jornada

Que seja solidário com os menos evoluídos, afortunados, favorecidos

Que tenha consciência do seu papel no mundo, na sua própria vida e na de quem lhe rodeia

Que tenha sonhos, planos, objetivos

E que tudo isto lhe encha de alegria e motivação para seguir em frente

 

Desejo que tenha coragem para enfrentar as dificuldades

Amor para dar e receber

Força para superar seus limites, mudar aquilo que lhe incomoda e afastar-se do que lhe prejudica

Que plante bons frutos, pois só assim o futuro estará seguro

Desejo que tenha humildade, boa vontade, generosidade...

Consigo e para os demais

Que tenha luz, fé e esperança

Para ajudar a construir um mundo melhor pra mim, pra você...

Pra todos.

 

Se for Cristão, desejo também um Feliz Natal!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Brincadeira de Deus

Às vezes Deus brinca de Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa...
Ele esconde o amor em lugares secretos, não óbvios, inimagináveis.
Para encontrá-lo é preciso esforço, persistência, dedicação, perspicácia, sensibilidade...
Quanto mais original for esconderijo, maior será nossa alegria ao encontrá-lo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Rompendo o Ciclo

Existem pessoas que considero verdadeiras pérolas, jóias raras mesmo, de altíssima qualidade.
Estas pessoas não são heróis ou heroínas, não fizeram grandes obras pela humanidade, não se destacaram de forma muito significativa no trabalho ou nos estudos, levam vidas simples, sem grandes acontecimentos. São pessoas que, num primeiro momento passariam desapercebidas pela maioria de nós.
É ao conhecer a família de origem destas pessoas que descubro o quanto elas são extraordinárias. Não pelo que elas são, mas pelo que poderiam ter sido e eptaram em não ser.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Adotar faz bem


Muito raramente, não com a frequência que eu gostaria, o Carlinhos aceita ingerir algum alimento via oral.

Mesmo usando sonda há um ano, até hoje eu ofereço refeições para que ele possa sentir o gosto de um docinho ou salgado - tudo em consistência de iogurte, devidamente processado e sem nenhum pedacinho sólido, pra que ele não se engasgue. Claro que não faço isto seguidamente, porque sei o quanto é difícil para ele a função da deglutição. E mesmo sendo raramente, nem sempre ele aceita bem, começa a tossir, demonstra sentir náusea, e então imediatamente eu paro.

Mas hoje ele aceitou bem, comeu purê de batatas com caldo de feijão. Uma quantidade pequena pra um adolescente de 14 anos, depois tive que completar a refeição com meia dose de dieta pela gastrostomia.

Mas é tããããããããããão gratificante vê-lo comendo, que mal posso conter minha alegria. Fico olhando ele comer sorrindo, falando, babando (kkkkk) – tudo junto, ao mesmo tempo. É muito bom vê-lo sentindo prazer em se alimentar, sentir o gosto de alguma coisa que não só o creme dental. Naquele momento esqueço que ele tem uma perfuração na barriga e mato a saudade de quando aquilo não era necessário.

Fico toda boba, vendo a independência que ele tem naquele momento, de poder ele mesmo engolir o que irá para o estômago. Acho o máximo!!!!!

Estes momentos não tem preço, são realmente indescritíveis.

Não sei quando ele aceitará novamente, mas continuarei tentando. Por ele e por mim. Instinto de mãe, certamente. Aquela ‘gana’ que a gente tem de poder alimentar o filho. A psicologia deve ter resposta pra isso. Hehehe

Passado o momento de euforia, fiquei lembrando das campanhas estilo “Adote um bichinho de estimação”, que a gente toda a hora vê na mídia. As exposições de animaizinhos sem pedigree, que esperam um dono ou dona pra finalmente ganhar um lar.

Acho louvável mesmo que movimentos assim sejam feitos. Adoro os bichanos, embora atualmente minha rotina não permita ter um em casa.

Daí fiquei pensando... Porque será que não existem Campanhas de Adoção de Pessoas?

Claro que gente não é bicho, seria ridículo conceber a idéia de exposição de pessoas para adoção...

Mas porque será que o Estado não investe maciçamente nesta idéia? Os abrigos cheios de crianças e adolescentes desejando ardentemente uma chance... e nada.

Sempre que converso sobre adoção com alguém que não tenha tido nenhum tipo de contato com esta realidade, invariavelmente tenho que desmistificar uma série de conceitos, esclarecer as regras do jogo, ignoradas por quase toda a população.

Isto me fez pensar que não existe uma iniciativa de política positiva em relação a este tema.

Lamentável...

Mas eu, de minha parte, deixo aqui o registro da minha singela, porém MARAVILHOSA experiência de vida e o meu incentivo a todos aqueles que tem vontade de adotar uma criança ou um adolescente, negro ou branco, saudável ou portador de alguma deficiência, menino ou menina, sozinho ou pertencente a um grupo de irmãos:

ADOTE UMA PESSOA!

 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Cuidado com os "elogios"!

Ouça com atenção tudo o que as pessoas têm a dizer sobre você.
Porém, não esqueça de colocar um filtro no ouvido, ninguém conhece 100% da sua essência e isto pode gerar opiniões erradas sobre a sua pessoa. Não aceite rótulos simplistas ou generalizações baratas sobre quem você é. Aproveite somente o que lhe pareça coerente e realmente engrandecedor.
E agora sim, o MAIS IMPORTANTE: procure a verdadeira intensão de quem está te julgando/avaliando. Salvo em casos de extrema generosidade, as pessoas normalmente apontam em você o que AS desagrada, não o que lhe diminui enquanto ser humano.
Uma crítica pode revelar muito mais sobre quem o outro é do que quem você é.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prioridade: EU

Devemos ser urgentes com as questões que nos digam respeito, priorizar nossas próprias necessidades, principalmente as de melhoria interior.
Não por uma questão de egoísmo, mas pelo simples fato de que todo o resto que nos circunda depende exclusivamente de como estamos nos tratando.
As pessoas que atraímos, a energia que emanamos, as doenças físicas e emocionais que desenvolvemos, o sucesso ou o fracasso no âmbito profissional, a qualidade dos relacionamentos que cultivamos. Enfim... tudo começa em nós.

Tudo o que colhemos é fruto do que plantamos. E estamos em constante plantio. Selecionar as sementes e, alterar os critérios de seleção sempre que necessário, é a única forma de garantir colheitas cada vez mais fartas e de maior qualidade.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia da Consciência Humana


Pra mim hoje é "Dia da Consciência Humana".
Enquanto a humanidade insistir em segregar-se em raças, cores, credos, ideologias, sexualidades, profissões, diagnósticos, classes sociais, etc etc etc..., continuaremos APENAS comemorando datas que contemplam alguns isoladamente, tentando elevá-los em relação aos demais (ao menos naquele dia).
Somos todos iguais, todos os dias do ano, perante a lei, perante Deus e perante os homens de boa vontade.
Devemos lutar por justiça social, igualdade de fato (não apenas de direito), pelo resgate da história, pela dignidade das minorias oprimidas. E isto não é um DIREITO apenas dos negros, dos índios, dos homossexuais, das mulheres, dos deficientes ou dos pobres. É um DEVER de TODOS!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O sentido da caridade

Quem atribui um ato de caridade à geração de uma dívida, ainda não compreendeu o seu verdadeiro significado.
Dívidas são contraídas por ações negativas, nunca por um ato de amor.
O único sentimento que a caridade deve gerar é o de gratidão e não o de endividamento.

sábado, 17 de novembro de 2012

O mais chato de conviver com quem não 'vira a página' é que a pessoa fica lendo mil vezes a mesma coisa... em voz alta.

Opção de vida: Felicidade!

Sempre que alguém me pergunta se estou feliz, respondo que não.
Eu não ESTOU feliz, eu SOU feliz!
Ser feliz é uma decisão que tomamos e não um objetivo a ser alcançado. Todos temos motivos de sobra para encontrarmos a felicidade em qualquer circunstância da vida, por mais adverso que seja o momento.
O segredo é valorizar o que está bem, trabalhar com dedicação no que não está legal e diminuir o nível de ansiedade e expectativas em relação ao que não depende de nós.
Bom final de semana a todos! Sejam felizes!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

INTOLERÂNCIA ao racismo!


“Acabou o veraneio, agora só tem negrão”. Esta frase marcou lamentavelmente o fim da minha temporada de praia no ano de 2010.

Estávamos organizando a bagagem para a viagem de retorno à Gravataí. O verão tinha sido ótimo, era o primeiro que passávamos numa pequena praia dos arredores de Tramandaí onde tínhamos comprado uma casinha de veraneio. Fizemos novos amigos, levamos os mais chegados e alguns parentes para passar alguns dias conosco na nova casa do litoral, nos divertimos muito. O verão foi de fato aproveitado. Então, quando carregávamos as malas para finalmente voltar pra casa, recebemos a visita de um conhecido, proprietário de uma pequena imobiliária do local, que veio despedir-se, pois com o fim do carnaval pouquíssimos veranistas ainda estavam por ali. Entre eles, uma família de etnia negra, hospedada numa casa bem próxima à nossa. Além dos pais, havia três adolescentes na casa. Os meninos saiam de carro várias vezes ao dia e sempre com o som ligado em alto volume, como muitos adolescentes o fazem, já que a pouca fiscalização no trânsito e o ambiente fantasmagórico (devido à maioria das casas já estarem desabitadas) são quase um convite ao volante pros que ainda não possuem carteira de motorista, embora já saibam dirigir.

O referido conhecido estacionou o carro em frente à nossa casa, desceu, cumprimentou-nos com um sorriso amistoso, disse que sempre lamentava o fim da temporada de praia. A cidade ficava triste, vazia... Desejou-nos uma boa viagem, disse que ficaria aguardando o nosso retorno pra talvez tomarmos um chimarrão (ele e meu marido tinham descoberto alguns interesses profissionais em comum), retornou para o carro e antes de ir embora se sentiu a vontade para proferir a “pérola”: ‘Acabou o veraneio, agora só tem negrão’.

Ficamos mudos diante da ousadia da demonstração de racismo. Como não esboçamos reação, ele pensou que não tínhamos ouvido ou ‘entendido’ o que ele dissera e então repetiu a frase, desta vez em tom mais alto. Virei às costas e entrei na casa. O Robson limitou-se a acenar em despedida para que ele saísse logo dali.

Eu e meu marido estávamos realmente incomodados. Nunca demos a ele o direito de fazer revelações sórdidas de preconceito, jamais demos abertura para que ele se sentisse a vontade para aquilo e confesso que há bastante tempo não ouvia um comentário de conotação racista tão explícito como aquele. Imediatamente meu sangue ferveu, senti as bochechas esquentarem, o coração veio pular no pescoço, as mãos tremiam involuntariamente. Eu estava PUTA da vida.

Então fiquei pensando em como alguém se arrisca ao expor seu preconceito, seja em relação ao que for. Eu, visivelmente sou filha de brancos, sou morena de pele clara, meu rosto não possui traços indígenas, negros ou asiáticos. Minha etnia tem raízes europeias, apesar de eu não ser loira e também não ter olhos claros. Mas ele não me conhecia, não sabia da minha história, da minha vida, das minhas crenças. E se eu tivesse um padrasto ou madrasta negra que fosse alguém importante para mim? E se eu tivesse um negro como meu melhor amigo? E se eu tivesse encaminhando documentos para adotar uma criança negra?

Não sou racista, mas também não sou negra. Não sou obrigada a presenciar ou testemunhar o racismo de quem quer que seja. Sinto-me agredida quando alguém se concede o direito de manifestar seu racismo na minha presença. É como uma bofetada na minha cara, pois leio este comportamento da seguinte forma: se você fosse negra eu não te trataria como estou te tratando, não consideraria você uma possibilidade de amizade, não seria sincero como penso que posso ser pelo fato de você ser branca.

Mas quem disse que pelo fato de eu não ser negra eu seja obrigada a tomar conhecimento do racismo do outro? Quem disse que pelo simples fato de EU não ser negra, não signifique que eu não seja uma ativista contra o racismo?

Conheci a realidade das crianças abandonadas nos abrigos e lá pude constatar de forma prática o que sempre soube na teoria. Os negros continuam sendo discriminados, massacrados, explorados, diminuídos pelos brancos. Claro que muitas conquistas já ocorreram, principalmente depois da criação de leis contra o racismo que criminalizam a prática do racismo. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Quero acreditar que o racismo não existe mais, estou criando o meu filho de modo a não ressaltar a discriminação, para que ele talvez tenha a possibilidade de não conhecer o maldito preconceito. Mas quando me deparo com um animal irracional manifestando de forma sarcástica o seu lado podre, percebo que este mal está longe de ser realmente banido.

 Queria muito não ter que falar em preconceito para o meu pequeno, gostaria que esta palavra fosse abolida do dicionário, sei o quanto é nocivo ter que lutar contra algo invisível, dissimulado, que fica nas entrelinhas. Mas estou convicta de que terei que fazê-lo. Lamento mesmo.

Meu manifesto, obviamente não se limita ao racismo, mas se estende a todo e qualquer preconceito. Eu não preciso ser negra pra me reservar o direito de não ver exposto o racismo do outro, não preciso ser declaradamente lésbica para ter o direito de não ser exposta a homofobia, não preciso ser pobre para não ter que aturar a soberba dos ricos. Eu simplesmente tenho o direito de não receber ou, ao menos, não ser obrigada a presenciar qualquer manifestação de preconceito.

Quando alguém deliberadamente manifesta o seu preconceito diante de outra pessoa (ainda que ela não seja o alvo da sua bestialidade), ela está lançando um desafio. Quem faz isto obriga seu interlocutor a receber sua influência negativa em relação ao tema. Gente!!! Racismo é crime!!! Porque cargas d’água alguém se sente no direito de continuar disseminando ideias criminosas??? Isto é uma afronta à moralidade! Sinto-me profundamente agredida como ser humano, como cidadã que conquistou constitucionalmente o direito de ver banidos os manifestos racistas.

No meu entendimento todo o preconceito pode ser definido como uma falha de caráter, pois em nome dele são gerados atos de violência com os mais variados níveis de gravidade, atingindo não só o seu objeto de discriminação, mas ameaçando a paz social e a convivência respeitosa a qual TODOS temos direito. O preconceituoso cria em torno de si um clima de hostilidade gratuita em relação ao alvo da sua opinião discriminatória. Em nome do preconceito, todos são submetidos a uma tensão absolutamente desnecessária e irracional, já que o preconceituoso está constantemente disposto a subjugar o outro de forma pré-concebida, sem critérios concretos e racionais de julgamento.

Eu tenho o DIREITO de não tolerar o racismo ou qualquer outro tipo de preconceito!

Qualquer um que se manifeste na minha presença contrariamente a isto está invadindo o meu espaço intelectual, está poluindo moralmente o meu ambiente, está querendo entregar a mim a sua pior versão. EU PROTESTO!!!!!

Racistas, homofóbicos e qualquer outro tipo de ser preconceituoso, reservem para vocês mesmos o seu veneno. Não nos obriguem a compartilhar de suas misérias e de sua irracionalidade. NINGUÉM é obrigado a ouvir suas atrocidades! Parem de se expor ao ridículo!

Parem de nos expor às suas patologias morais!

Tolerância é um dever, mas acima de tudo é um DIREITO de todos. Não tentem nos subtraí-lo, obrigando-nos a abrir mão de exercê-lo em relação a vocês.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Esperando o Natal


Hoje estamos abrindo oficialmente o período "festas de final de ano". Já separei os objetos que irão decorar a casa, a árvore de natal e seus múltiplos adornos, as luzes que irão iluminar o jardim... agora mãos à obra. Bora montar o 'circo natalino'.

Mas a mente quer mais... SEMPRE mais.

Esta época do ano, pra mim, é um misto de sentimentos. Alegria, por mais um ano vivido, contentamento pelas conquistas, gratidão pela saúde física e mental, emoção ao lembrar a história do menino Jesus, paz em imaginar como será a ceia, os abraços, as mútuas felicitações. Mas neste contexto é inevitável pensar nos que não terão o mesmo que eu, nos asilos, nos abrigos para menores abandonados ou infratores, nos presídios, nos hospitais, nas malocas feitas de lixo, nas clínicas para drogados...

Há tanta dor no mundo, tanta miséria, tanta injustiça, tanta covardia e sujeira...

Lembro-me agora da oração de São Francisco: “Fazei de mim um instrumento da Tua paz”.

Quero muito mais que um Feliz Natal pra todos! Quero dignidade, justiça, igualdade, liberdade, acesso à saúde, educação de qualidade, inclusão social, ar e água limpos, políticas públicas que contemplem os mais necessitados não com esmolas, mas com oportunidades de um futuro melhor. Quero a infância protegida, longe dos vícios, da marginalização, da discriminação. Quero o fim do preconceito, da opressão e da exploração...

São tantos desejos, que não consigo parar de enumerá-los.

No fundo, o que desejo, é ser como Jesus, seguir seus exemplos, me manter firme na minha caminhada. Desejo que eu nunca abandone a minha indignação, a minha revolta e minha capacidade de protestar contra tudo isto que abomino. Desejo ser lúcida pra enxergar todas as oportunidades onde eu possa ser útil ao meu próximo. Desejo fazer com as minhas próprias mãos o mundo que sonho em um dia ver.

Estou aqui, Senhor, pronta para ser um instrumento da minha, da nossa, da Tua PAZ!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Grande Rebelde

Se Deus quisesse que fôssemos fantoches uns dos outros ou que os menos afortunados se submetessem às humilhações dos mais favorecidos Ele não teria enviado um rebelde para que nos servisse como exemplo de conduta.
Sim, Jesus Cristo foi o maior rebelde de todos os tempos, ele nunca se acomodou à hipocrisia, nunca se submeteu aos poderosos, aos covardes, aos oportunistas. Ele combateu a mentira, a falsidade, a maldade e a injustiça como nenhum outro rei, político ou sociólogo jamais ousou fazer.
E sem utilizar violência, fez a maior revolução que o mundo já testemunhou.
Mais de 2000 anos depois ainda não conseguimos compreender (ou ao menos colocar em prática) a maior parte dos seus ensinamentos. Isto prova o quanto Ele era infinitamente superior a qualquer um de nós.
Nunca houve outro homem com tamanha grandeza, coragem e poder de amar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Entregue a Deus

Penso que talvez o mais difícil para um verdadeiro Cristão seja querer ajudar alguém e descobrir que o outro simplesmente não queira ser ajudado.
Nos entristecemos quando constatamos que um ser humano abriu mão da grande oportunidade concedida por Deus através desta encarnação, incorrendo no erro ou na rebeldia, pois sabemos o quanto ela é preciosa e importante.
Mas não devemos esmorecer. Lembremos da experiência de Jesus, que foi covardemente assassinado pela humanidade pelo simples fato de demonstrar o seu amor por nós. Somos os mesmos desde então. Nascemos, morremos e renascemos em lenta mas constante evolução.
Cada um possui um tempo próprio. Respeitar o livre arbítrio e encarar a nossa impotência diante da vontade do outro é sinal de maturidade, além de ser prova de fé, pois um cristão jamais vira às costas a um irmão. Nós apenas o entregamos a Deus.

domingo, 11 de novembro de 2012

Vem, chuva

Tenho um apreço especial por dias cinzentos, eles propõem reflexão e uma varredura interior.
Desejo que venha a chuva e carregue com ela toda a sujeira das ruas, dos homens, do mundo...
Águas, revirem a terra em depositem sob ela todo o mal que há.
Que este lixo interior, a exemplo dos resíduos orgânicos, transforme-se em poderoso adubo.
E que esta reciclagem nos liberte de nossos próprios venenos, cedendo espaço para um novo ciclo cheio de flores, de vida e de cores.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Filhos Especiais


Filhos especiais nos tornam pessoas especiais. Aprendemos através dos seus limites o quanto é perfeita a natureza e nem nos damos conta da sua magnitude. Pois ao invés de nos determos no “defeito”, nos apegamos a tudo o que neles “funciona perfeitamente”.

Um dia, não lembro por que motivo encostei o ouvido no peito do meu filho e ouvi as batidas do seu coração. Eu sempre soube que ele funcionava perfeitamente, mas o pulso que percebi em cada batida era tão vigoroso que ali reconheci a gigantesca força da vida. Aquele coração perfeito não conhecia o limite do corpo. Ele funcionava harmoniosamente a despeito da paralisia cerebral, das crises convulsivas, das deformidades ortopédicas que o tempo se encarregava de moldar no seu corpo. A vida ignora a dor, como a onda ignora o repuxo da maré. Ela avança sobre ele, desafia a sua rebeldia em querer carregar as águas para o lado oposto e simplesmente derrama-se sobre a areia branca, cumprindo o seu destino.

Os filhos especiais nos ensinam a valorizar pequenas conquistas, por menores que sejam. Nos mostram um mundo de grandes feitos onde a trivial ‘normalidade’ jamais nos revelaria.

Somos sim mães superprotetoras, brigamos como leoas pelos seus direitos, questionamos a medicina como se os médicos de nada soubessem, desafiamos os seus conhecimentos exigindo provas do maldito ‘irreversível’. Pesquisamos tratamentos, contestamos as previsões negativas, nos agarramos ao otimismo quando a ciência nos indica um futuro nebuloso. Vivemos um dia de cada vez e todos como se fosse o último. Não fazemos planos para longos períodos, pois a fatalidade pode nos surpreender na próxima complicação. Aprendemos a renunciar projetos, recusar alguns convites, virar a casa de pernas pro ar em busca do melhor ambiente para eles. Viramos escravas do relógio, controlamos a dieta, a medicação, os dias que se passaram sem que eles evacuassem (para intervir com laxantes, caso necessário). Não os confiamos a ninguém, embora muitas vezes tenhamos que deixá-los sob os cuidados de outra pessoa. Mas confiar... não dá, ninguém os conhece como nós.

Vivemos constantes paradoxos. Para nós, mães de filhos especiais, nunca chega a hora de deixar de dar colo, apesar do desenvolvimento dos seios ou do crescimento do bigodinho, do surgimento dos pelos pubianos e das espinhas que invadem seus rostinhos. Eles, aos nossos olhos, serão sempre bebês que precisam ser carregados. No colo, na alma...

            No fundo, são eles quem nos carregam, é deles que recebemos a força necessária para superarmos todos os obstáculos, são eles quem nos transmitem os grandes ensinamentos. Eles nos tornam fortes como rochas, por eles descobrimos que o único motivo da existência de um limite é a sua superação. Por eles nos tornamos mais humildes, menos mesquinhos, maiores na tolerância, na força física (porque o esforço não é pouco), na paciência e na perseverança. Filhos especiais são capazes de realizar verdadeiros milagres.

            09/11/12

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Morte e Vida


Talvez o que nos impeça de “aceitar” a morte seja o fato de nos pretendermos acima da natureza. A condição de animal racional, por vezes, ilusoriamente nos distancia do pertencimento ao ciclo da vida.

Temos a possibilidade de compreender, analisar, planejar, executar e avaliar a nossa existência, diferentemente dos outros animais, e por isso passamos a acreditar erroneamente que não somos assim ‘tão animais’ quanto os demais. E este distanciamento, que a racionalidade nos faculta, é justamente o que nos faz ‘pensar’ que deveríamos estar acima da possibilidade da morte. Um paradoxo, já que a própria vida nos impõe este limite.

Só não está sujeito à morte, aquele que não tem vida. Logo, não aceitar a morte significa não aceitar a vida propriamente dita em toda a sua complexidade, não compreender de fato a sua beleza, seu infinito recomeço e as suas constantes transformações. Não aceitamos porque não queremos sair de cena, deixar de ser o eterno predador e tornar-nos a presa na cadeia alimentar.

Claro que nesta questão estão envolvidos muitos outros fatores como o medo do desconhecido (já que ninguém ‘voltou’ para contar o que encontrou após morrer), a religiosidade e um ‘julgamento pós-morte’ que a fé nos sinaliza, deixar a convivência com nossos afetos, abandonar os bens materiais, ser desapropriado do próprio corpo, saber que as sensações da vida física não serão mais experimentadas (dores e prazeres), mergulhar no ciclo como fornecedor e não mais como cliente.

Todas as variantes que circundam a morte são inegavelmente irreversíveis e nada podemos em relação a elas. No fundo talvez seja isto o que nos cause tanto espanto. Mas então eu pergunto: E quanto à vida, na qual tudo podemos e, pensando que haverá sempre um amanhã, acabamos nunca realizando o que tanto gostaríamos? E todas as possibilidades que deixamos passar enquanto desprezamos a morte, embora a temamos terrivelmente?

A reflexão que proponho não é quanto à impotência que a morte implacavelmente nos impõe, mas sim às infinitas opções que a vida nos apresenta a cada ano, cada dia, cada segundo.

Todos vamos morrer, mas quantos de nós seremos capazes de deixar uma saudade e uma admiração coletivas e não apenas nos familiares ou amigos próximos? Quantos poderão deixar um legado de realizações, de superação, de construção de algo relevante para si, para os seus ou para toda a humanidade? Perceber que somos finitos deveria nos servir como combustível para a vida. Aceitar que um dia não mais seremos deveria fazer-nos valorizar ainda mais o que hoje somos. Saber que o jogo acaba deveria fazer-nos ser exímios jogadores.

Tenho minhas crenças em relação à criação, à vida e à morte, assim como a grande maioria das pessoas também as tem. Respeito e até aplaudo a pluralidade de credos. Mas objetivamente isto passa ao largo do concreto, do palpável e do ‘comprovado cientificamente’. Discutir teorias não nos levaria a lugar nenhum, até porque nenhum de nós poderá comprovar a sua crença enquanto estiver vivo. Mas ainda àqueles que crêem numa vida após a morte e na reencarnação, para eles esta existência (a atual encarnação) é também uma possibilidade única e que não se repetirá jamais. Logo, proponho que a morte não seja vista como um tormento, um castigo ou uma ameaça da vida ou de Deus. Sugiro que ela nos traga a consciência do hoje, do agora. Que ela nos sirva para mergulharmos mais profundamente em nós mesmos em busca da nossa essência, da nossa felicidade, da nossa ampla realização. Que nos sirva a consciência do ‘fim’ para fazer a VIDA de fato valer a pena, pois quando compreendemos o seu verdadeiro valor, finalmente aceitamos a morte.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fazer o bem sem ver a quem

Vivemos numa época de tanto individualismo que há quem não entenda o motivo da caridade. Não raro já expliquei o porquê de ser ouvinte de um aflito, de perdoar uma ofensa, de levar a Palavra a um descrente. Algumas pessoas não vêem sentido em fazer algo por outrem sem que haja uma imediata contrapartida.
Aqueles que desprezam a caridade ao próximo além de demonstrar ingratidão perante a vida, já que certamente um dia também foram ajudados por quem quer que seja (pois ninguém é auto-suficiente), revela ainda o seu egoísmo. Eu mereço/mereci receber ajuda, o outro não.
Somos um coletivo em busca da paz. Enquanto um de nós estiver nas sombras, caberá a todos os outros alcançarem-lhe a luz.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia de Mudança


Mudança não é um desejo. Mudança é atitude.

Quem deseja a mudança, mas não age de forma a promovê-la, no fundo não quer mudar, quer um milagre.

Já ouvi muitas pessoas dizerem “quero acordar de um pesadelo”, “gostaria de dormir e só acordar depois de um longo tempo, quando tudo já estiver resolvido” ou ainda “como eu gostaria que AS COISAS fossem diferentes”.

Quando uma pessoa assume este tipo de postura diante dos problemas está abrindo mão de sua autonomia em relação à própria vida, fica evidente que não está disposta a ser o agente da tão “desejada” mudança. Porém, invariavelmente o único agente capaz de nos modificar somos nós mesmos.

Vale lembrar que não adianta mudarmos de cidade, de emprego, de marido... e repetirmos os mesmos erros. A verdadeira mudança é primeiramente interior. Nada impede que demos chance a um novo trabalho, uma nova relação amorosa, e todas as demais alterações que consideremos necessárias. Mas entrar em novas circunstâncias sem, no mínimo, avaliar a nossa parcela de contribuição para que o fracasso tenha acontecido, é empurrar a sujeira para debaixo do tapete, além de comodamente atirarmos a responsabilidade de todos os erros em cima do outro (o filho, o marido, o chefe, o vizinho...).

A mudança implica em levantarmos da poltrona e jogar fora aqueles últimos cigarros que ficaram no maço e não esperar que eles terminem para depois parar de fumar. Mudar é calar a voz quando houver a irresistível oportunidade de maldizer alguém. É abrir a geladeira e jogar fora tudo aquilo que prejudica a nossa saúde e abrir espaço para uma nova dieta. Mudar é reorganizar os horários do dia e destinar um tempo para o que nos faça bem (se não puder ser diariamente, que seja com a maior freqüência possível). Mudar é aprender que não sabemos tudo, e que existem milhões de coisas interessantes a serem descobertas. E que estas descobertas nos levarão talvez a fazer novas mudanças. Mudanças nas coisas simples ou nas grandes verdades nas quais acreditamos, na qualidade dos relacionamentos ou no autoconhecimento.

Mudar é saudável, rejuvenesce, atrai novas relações, afasta as que já se esgotaram. Mudar é um exercício prazeroso, estimulante, enriquecedor. E para isto não existe um tempo, o dia é hoje e o momento é agora.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Só o Amor

De que vale o amor, se não para nos libertar?
Só o amor pode nos livrar do ódio, do ressentimento, da mesquinhez, da inveja, do rancor...
Só o amor pode nos dar coragem para encarar o limite e ter a ousadia de duvidar da sua intransponibilidade.
Ele é a única chave capaz de abrir as portas do coração e nos fazer verdadeiramente livres de todos os males.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O consentimento e a consciência


Nem tudo o que é consentido é consciente.

            Consentir significa concordar com algo que já exista pré-determinadamente de alguma forma, embora não necessariamente concordemos que seja a melhor.

            Ter consciência significa propor a nossa alternativa de atitude. Talvez até concordar que a melhor realmente seja a que já exista, porém sem desprezar as demais, analisando todas as possibilidades. E o mais importante, não agir mecanicamente diante da vida, mas por alguma razão que para nós seja realmente importante e coerente.

 

 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Aprendi a acreditar em milagre.
Como?
Fazendo a minha parte.
O resto conspira naturalmente a meu favor.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

E o peixe, ein?


Não posso pescar. Isto é contra a minha crença.
Não posso aprender a pescar. Isto não seria coerente com minha filosofia de vida.
Não posso te ajudar a pescar. Se eu fizesse isto, entraria em contradição com meus princípios.
Não posso nem pensar em pescar. Minha moral me acusaria de grave traição a meu conjunto de valores.
Mas mudando de assunto, divide comigo esse teu peixinho aí?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Direito Concedido

Pois bem, acabo de constatar que não sou tão tolerante quanto sempre imaginei que fosse.
Não tolero egoísmo, arrogância, burrice (não estou falando de ingorância, é burrice mesmo, aquele lugar confortável que alguns gostam de ocupar propositalmente para justificarem suas limitações, frustrações, contradições, alienações...), ingratidão, deboche, má vontade (em relação à vida em geral), desrespeito, coitadismo.
Creio que sob alguns aspectos, tenha chegado ao meu limite. Me reservo o direito de não conviver com pessoas negativas. É difícil abrir mão, já que nenhum de nós é 100% defeito (assim como ninguém é só qualidade), mas vejo o afastamento como uma questão de auto preservação.
Não deixo de amar, apenas de sofrer.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A opção do sofrimento


            Um dos maiores lucros que a maturidade pode nos trazer é a compreensão de que o sofrimento, na maior parte das vezes, é apenas uma questão de opção. Somente as experimentações da vida poderão nos proporcionar este entendimento.
            Ao analisarmos um contexto de sofrimento, podemos observar que, em grande parte, os sofrimentos são produtos de nossas próprias escolhas. Todos sabemos que é preciso fazer escolhas o tempo todo e a falta de uma reflexão mais profunda acerca destas escolhas, comumente nos acarreta sofrimentos futuros. Ora, se a causa foram nossas opções equivocadas, caberá somente a nós o reverso da situação em que nos encontramos. Seja através de novos critérios de escolha ou na formulação de uma nova postura diante do contexto em que nos colocamos.
            Ademais, os sofrimentos que nos escapam das mãos, ou seja, aqueles que nos são impostos independente da nossa vontade ou das nossas escolhas, podemos ainda e em qualquer tempo, ao menos procurar a minimização do impacto através da aceitação. E analisemos que aceitação não significa concordância.
Um percentual enorme do sofrimento deve-se ao fato de negarmos a realidade. Enquanto fazemos isto, nos privamos da possibilidade de enxergar com clareza aquilo que nos incomoda e, posteriormente a isto, definirmos qual será a nossa atitude a respeito. Somente uma conscientização da realidade nos trará a tranqüilidade necessária para visualizarmos nossas possibilidades de ação ou reação. Ao nos debatemos na tentativa de mascararmos os fatos, eles tendem a se agravar progressivamente com o passar do tempo.
            A aceitação está diretamente ligada à opção de enfrentarmos a realidade tal como ela se apresenta e, diante desta constatação da realidade, caberá somente a nós a definição do peso que atribuiremos a este fato em relação aos demais que nos cercam. Não proponho a indiferença, mas uma atribuição de valores coerente e que nos cause menos dor. Pois enquanto passamos por uma determinada dificuldade, paralelamente a isto sempre existem motivos de alegria e leveza que jamais devemos desprezar, pois são eles que nos proporcionarão o equilíbrio necessário para não sucumbirmos diante daquilo que nos desagrada.
Normalmente a potencialização do sofrimento deve-se à supervalorização do seu fator causador. E o desespero nos cega em relação às coisas boas que invariavelmente também nos circundam. Tudo está dentro de nós, basta que busquemos as ferramentas certas e mantenhamos a serenidade. Caminharmos em companhia das sombras ou da luz é uma opção que cabe exclusivamente a cada um de nós.

sábado, 20 de outubro de 2012

O preço da consciência


Quem não luta pela liberdade não merece ser livre.

Não me refiro à liberdade de ir e vir.

Refiro-me à liberdade de pensamento. Aquela que só conquistamos quando deixamos de usufruir da massa encefálica de outros para exercitarmos a nossa.

Isto requer o abandono de velhos paradigmas, questionamento de raízes profundas, derrubada de preconceitos, busca de novas respostas, o lançamento de luzes novas em velhos palcos. E não existe fórmula mágica. Pesquisa, reflexão, dedicação e alguns rompimentos são imprescindíveis.

Dá mesmo trabalho ser livre.

Não há conforto na liberdade.

Há lágrimas, descobertas, constatações, sorrisos, alegrias, tristezas, decepções, surpresas...

É o “impagável” preço da consciência.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

'Feliz' Dia do Professor!


No último dia 15, Dia dos Professores, não me manifestei em relação à comemoração da data por diversos motivos. Não que em minha memória não residam excelentes professores, seres humanos admiráveis mesmo, pessoas que me influenciaram positivamente e me ensinaram coisas que jamais esquecerei.

Mas hoje, aos 35 anos de idade, entendo a educação de uma maneira muito diferente da que pensava na época em que passei pelos bancos escolares. Nada como o distanciamento, após a vivência da experiência prática, para termos uma visão mais abrangente dos fatos.

Mas voltando á minha ‘não manifestação’ do dia 15... bem, não mandei aquele “Feliz dia dos Professores” generalizado (e olha que tenho muitos amigos professores, também aqui no face), assim como não desejei um “Feliz dia das Mães”, ou “Feliz qualquer outro dia” nas demais datas ‘comemorativas’ do ano, pelo simples fato de que nem todos os que figuram, realmente são.

Claro que tenho consciência da importância do professor na vida de todos nós (mesmo daquele professor medíocre que se limita a bater o cartão e enfiar goela abaixo dos alunos os conteúdos obrigatórios do currículo). Mas não era da profissão que gostaria de falar, afinal o nome do ‘evento’ é dia do PROFESSOR e não ‘dia da educação’, ‘dia da escola’, ‘dia do magistério’, e quero falar exatamente do motivo do feriado: o professor.

Há muitos anos que vejo a categoria, de uma forma geral, com certo cansaço. Não um cansaço que arremeta a desprezo ou desvalorização, refiro-me a um cansaço de ouvir sempre o mesmo discurso: o do coitadismo.

A educação no Brasil, como todos os demais serviços públicos prestados pelo governo, em grande parte tem o estado como seu grande ‘patrão’. E sabemos que o estado não costuma ser um bom patrão. Ele frequentemete descumpre (ou tenta descumprir) a lei no que diz respeito à remuneração, não proporciona o cenário ideal para o exercício da profissão, não premia os melhores profissionais, não incentiva a reciclagem e a atualização de seus ‘empregados’, não proporciona o número suficiente de trabalhadores para que a qualidade do trabalho seja considerada boa e não investe em pesquisa para que o setor possa evoluir e aprimorar os seus serviços. Mas vejam que esta realidade não é privilégio do magistério. Esta constatação se estende aos médicos, aos policiais, aos agentes de saúde, aos garis, aos bancários, aos funcionários do INSS, do DETRAN, da EPTC, da CARRIS...

Todos nós sabemos que está tudo errado mesmo. Sabemos que a realidade dos funcionários públicos concursados precisa de uma ampla reforma, que há muito a ser feito para que a população receba serviços de boa qualidade. Mas o movimento de reivindicação dos professores adquiriu uma imagem de sofrimento pessoal. Minha mãe é professora (hoje aposentada pelo estado), participou de muitas greves, fez sinetaço em frente ao palácio do governo quando eu era criança, participava das reuniões do CPERGS, foi ativa mesmo em relação à luta da classe. E, na minha ótica, foi exatamente este caráter de ‘luta de classe’ que acabou afastando toda a sociedade do debate sobre a educação. A sagrada educação, que deveria ser assunto de interesse de todos.

Os professores nunca fizeram greve reivindicando reforma nas escolas, construção de mais unidades de ensino, contratação de mais professores, cursos de atualização e reciclagem para que pudessem acompanhar a evolução dos tempos, aquisição de tecnologia para o processo educativo, ampliação das bibliotecas, um espaço para a arte dentro de cada escola, melhoria da qualidade da merenda das crianças, entre tantas outras questões que abrangem a educação e vão muito além da figura do professor. A única motivação real das greves era o reajuste salarial. Óbvio que outras reivindicações acompanhavam esta exigência, mas o final ou a continuação da greve sempre esteve diretamente vinculado à negociação do percentual de reajuste.

Nós, enquanto sociedade, precisamos reivindicar muito mais do que a remuneração digna aos professores. Talvez, se a classe amarrasse a bandeira da causa própria (R$) à EDUCAÇÃO como processo ilimitado e interativo entre a escola e a comunidade, a família, a tecnologia, a política, a saúde, a segurança, a sexualidade, a problemática das drogas, da gravidez na adolescência, a sociologia, o aquecimento global, a reciclagem do lixo, a importância da atividade física (e aqui não estou falando da lamentável e sacal aula de educação física que avalia o desempenho dos alunos de acordo com a quantidade de voltas que ele consegue dar ao redor da praça em um determinado tempo), de uma alimentação saudável, da ideologia transmitida pelos desenhos animados, pela novela das nove, por programas como o Big Brother Brasil..., o êxito de suas reivindicações seria uma luta de todos e não apenas dos professores. Eles ganhariam o apoio de toda a sociedade e deixariam de ser apenas gotas em um oceano.

E por falar em gotas no oceano, registro aqui um fato que me fez acreditar que um dia, talvez, a educação, como todos os outros serviços públicos, poderá sim superar todos estes problemas e chegar ao patamar da excelência. Minha ex-colega do curso de magistério Gislaine Zambeli, que seguiu carreira na escola pública, dividiu conosco em seu facebook como foi o ‘feriado’ dela na última segunda-feira. Ela foi para a escola, comemorou com suas colegas o dia dedicado ao seu ofício (apesar de todas as dificuldades), debateram os projetos futuros da escola, organizaram idéias, definiram metas, TRABALHARAM!!!! Trabalharam não pelo salário, pelo cartão ponto, pelas férias de 2 meses no verão e mais os 15 dias do inverno, não pelo direito a assistência do IPE, pela licença prêmio, pela licença saúde, pela aposentadoria privilegiada que os professores têm, trabalharam porque AMAM o que fazem, porque têm consciência da sua importância para o mundo, porque se negam a ficar apenas lamentando e sabem da sua responsabilidade em relação às crianças, aos adolescentes, à construção de um Brasil que acreditam ser possível.

Parabéns, Gislaine!

Parabéns a direção da sua escola!

Parabéns a todos os professores QUE, assim como qualquer outro trabalhador, faz a diferença dentro da sua profissão!

 

17/10/12

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Auto-perdão


Nenhum outro perdão é tão importante quanto o seu em relação a seus próprios erros.

O arrependimento não pode ser um estado permanente. Ele precisa durar apenas o tempo necessário para que você encontre um modo de reparar seu erro.

Enquanto você não se perdoa, acaba inconscientemente cometendo outros erros em desdobramento do objeto inicial do seu remorso.

Quantas relações passam por esta enfermidade durante anos, às vezes, a vida toda?

Pais que erram na educação dos filhos, seja no peso da mão, na ausência afetiva, no excesso material (que pode ser tão prejudicial quanto a falta) ou mesmo em alguma omissão, quando caem em si não raro tentam “compensá-lo” permitindo abusos e, com isto, deteriorando ainda mais a relação.

Errar é humano, perdoar é divino, SE perdoar é vital.

O auto-perdão é a única saída para o recomeço. Ele é o primeiro passo a ser dado em direção à construção da própria dignidade.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Construindo o Amor Próprio


Ontem, conversando com uma prima acerca da desastrada trajetória de vida de algumas pessoas que conhecemos, chegamos a uma espantosa conclusão: está faltando Amor Próprio.

            Digo espantosa, ao menos para mim, porque basicamente o tal amor próprio, como objeto isolado de análise, nunca esteve no foco da minha atenção. O amor próprio sempre me pareceu algo tão elementar à natureza humana quanto o próprio instinto de preservação – aquele que nos matem longe dos perigos que obviamente colocam nossa vida em risco.

Mas se o amor próprio fosse algo tão naturalmente inerente à condição humana, como explicaríamos o uso abusivo de álcool, do tabaco, das drogas ilícitas, das relações afetivas que nos rebaixam a fantoches nas mãos daqueles que acreditamos ser “o grande amor da nossa vida”, a opção por dietas ricas em gordura e doce em detrimento de uma alimentação saudável, o crescente sedentarismo em todas as faixas etárias ou mesmo a acomodação a tantas situações das quais vivemos eternamente nos queixando e não encontramos maneira de colocar um ponto final (mesmo que caiba somente a nós que isto seja feito)?

            Vejo nestas atitudes uma falta de amor próprio tão grande que algumas delas praticamente colocam em cheque inclusive o chamado instinto de preservação.

            Nos exemplos que atingem diretamente a nossa integridade física como o uso de substâncias químicas ou hábitos de vida que sabidamente são prejudiciais à saúde isto é muito claro. Mas nos exemplos que atingem basicamente nossa saúde emocional a falta de amor próprio também está de fato presente. Primeiramente porque já está provado pela ciência que o estado emocional (angústia, pessimismo, tristeza, solidão, depressão, sentimento de culpa etc) fatalmente acaba atingindo a saúde física ao longo dos anos. Além disto, nossa busca “inconsciente” por situações que nos levarão obviamente a repetidas frustrações simplesmente terminam com nossa auto-estima. Neste exemplo cabem perfeitamente aqueles que “têm o dedo podre para relações amorosas”, ou seja, entram e saem de relacionamentos com critérios de seleção de parceiros completamente equivocados. Pessoas que “se apaixonam perdidamente” por parceiros que todos em volta estão vendo que não querem nenhum tipo de compromisso emocional com elas.

            Dentro do conjunto de elementos que traduzem o amor estão presentes: o cuidado, o carinho, a proteção, a preservação, a dedicação, a promoção do bem-estar, entre tantas formas que temos de exercer de forma plena e saudável este sagrado sentimento. E onde ficam estes fatores em relação a nós mesmos quando optamos por mergulhar em situações que nos levam ao contrário de tudo isto?

            Não vejo outra forma de interpretar estes indícios como pura falta de amor próprio. Mas em que momento nos abandonamos? Quem de nós consegue perceber o dia e a hora exatos em que abriu mão deste amor e avaliou que não valeria mais a pena ser amado por si mesmo? E a única resposta que consigo encontrar é a de que o amor próprio não pode ser sufocado, subtraído ou renegado. Uma vez que ele exista jamais haverá o risco de que ele venha a sucumbir diante das dificuldades do caminho. A grande questão é que o amor próprio precisa ser construído.

            Este exercício não pode ser externo ao ser humano, o amor por si mesmo é algo que cada um de nós precisa encontrar sozinho. Obviamente que o contexto familiar, durante a infância, é ingrediente primordial para este processo, mas não é ele o único responsável por este start. Precisamos, antes de qualquer coisa, de autoconhecimento para saber em que base será calçado este sentimento. Assim como em qualquer relação, o amor próprio necessita de admiração para manter o fôlego em dia, neste caso de auto-admiração. Depois de detectarmos nossas forças e qualidades estamos habilitados a determinar que objetivos iremos traçar. Sem autoconhecimento nunca saberemos do que somos capazes, que tipo de interesses nos despertam a atenção. Além disto, planos são combustível para o amor. Assim como nas relações amorosas onde um namoro muito longo comumente esvai-se sem nunca se tornar um casamento, se não temos projetos pessoais não estimulamos nossa existência em busca de realizações que nos tragam orgulho. Não me refiro aqui ao orgulho da sensação de superioridade, mas ao orgulho de alcançarmos uma meta, da sensação de dever cumprido. E assim que os objetivos iniciais forem alcançados, lancemo-nos aos próximos.

            Como nenhum de nós é só qualidade, também é importante termos ciência dos nossos defeitos e das nossas limitações. Não para petrificá-los ao longo da nossa existência, tornando-nos conformados com nossas fragilidades, mas para encará-los como desafios a serem superados também. Qualquer limite nosso, por mais que chegue ao nosso conhecimento pelas queixas de outra pessoa, proporciona os maiores prejuízos a nós mesmos invariavelmente. Esta postura certamente nos fará traçar uma curva ascendente em nossa trajetória de vida. Buscar realizar hoje aquilo que não nos foi possível fazer ontem.

            E finalmente, espiritualizar-se. Procurar um entendimento mais amplo para a nossa existência. Buscar um sentido maior à vida. Seja através de uma religião, de uma filosofia, de um conjunto de valores que nos pareçam coerentes e positivos ou desenvolver para si mesmo um conceito próprio que nos dê motivação para a concretização de um bom desempenho.

            Seja feliz!

            Ame-se!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Inútil Competição


O que me cansa não é a ignorância, mas a burrice.
Se eu estou tentando ensinar a uma pessoa algo que ela não sabe, não entendo por que me ver com arrogância. 
Não me julgo superior a ninguém. Se tento repassar o que aprendi, é porque um dia tive a humildade de reconhecer que não sabia, e coragem de admitir minha ignorância, em primeiro lugar diante de mim mesma, posteriormente diante de quem pudes
se me ensinar o que eu não sabia.
Não quero competir com ninguém em absolutamente NADA. Meu único adversário sou eu mesma, minhas angústias, minhas fragilidades... e sob este aspecto sou realmente egoísta, não passo a vez pra ninguém. 
Quer competir? Procure outro adversário. 
Nego-me a competir com quem quer que seja enquanto não vencer a mim mesma.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Salve Joaquim Barbosa!

Ministro Joaquim Barbosa, 
o fato de o senhor ser negro engrandece ainda mais a sua atitude. Venceu o preconceito, acreditou em si mesmo, enfrentou a hipocrisia da sociedade, certamente ainda hoje convive com um monte de gente racista que se obriga a respeitá-lo devido a sua posição, com certeza recebeu proposta de propina, de conchavo, de prostituição política e ideológica, entre tantas outras barbaridades que acontecem nos bastidores de um julgamento. 
O senhor é, certamente, muito maior do que podemos imaginá-lo.

Abaixo à opressão

Só aceite a opressão durante o tempo necessário para reunir as forças suficientes para acabar definitivamente com ela.
Nem um minuto a menos, sob pena de ter que recuar. 
Mas também nem um minuto a mais. Caso isto ocorra, você será o único responsável pelo seu próprio cárcere.

domingo, 7 de outubro de 2012

Lamentável Política


O problema da política não consiste nas ideologias partidárias. Estas, em grande parte são boas, trazem consigo solução para quase todos os problemas, propõem o equilíbrio e a igualdade dos indivíduos, ao menos em tese.

O problema são as pessoas, que quando chegam ao poder se corrompem. Esquecem suas bandeiras, trocam o social pelo pessoal, acomodam-se à sujeira da máquina do poder, moldam seu caráter de acordo com a conveniência do momento.

Simpatizo com o PDT, louvo sobremaneira sua proposta de salvação do Brasil através da educação, suas raízes Brizolistas. Mas sinceramente não consigo vibrar de alegria ao receber a notícia de que Fortunati governará durante mais 4 anos a minha querida Porto Alegre.

sábado, 6 de outubro de 2012

Verdadeira Sabedoria


Que o teu conhecimento sirva-te como meio de ampliação da tua consciência.

Não seja ele motivo para a tua vaidade.

Não te julgues, por isto, superior, concedendo-te o direito de voltar às costas aos ignorantes.

Saibas que, ao invés disto, ele aumenta a tua responsabilidade perante aqueles que ainda não sabem o mesmo que tu.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Acorda Povo!


Pois então, meus amigos.... pra quem assistiu ao debate na RBS TV entre os candidatos à Prefeitura de Porto Alegre, realmente é sacal ficar ouvindo o Roberto Robaina repetir sempre as mesmas coisas: temos que acabar com a corrupção, os ladrões têm que ir pra cadeia, o prefeito deve sim se explicar em relação aos problemas detectados na sua gestão, os contratos de licitação estão mal explicados, bla bla blá. (E o pior de tudo é que o cara não fala em projetos)
Sim, ele é mais óbvio quanto o resultado de 1 + 1, de que adianta apresentar projetos se a torneira está aberta e não pára de desperdiçar nossa sagrada água (o dinheiro público)?
Este "cançaso" que alegamos ao ouvir repetidas vezes as denúncias de fraudes, roubos, desvios, má gestão, descaso com o nosso patrimônio, trocas de favores com os financiadores de campanha, prostituição entre os partidos, falta de caráter e ideologia política... nada mais é do que a nossa acomodação em relação a tudo isto. Não queremos saber de alguém que fale de problemas, queremos é alguém que diga que nos ama, que vai nos mandar flores no dia do aniversário de namoro, que somos lindos, que nos encante com suas promessas e nos mostre que a realidade é doce e tranqüila.
Acorda povo! 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Filhos ingratos?


            Poucas expressões causam-me tanta aversão quanto “filho ingrato”. E olha que não faltam exemplos deste “fenômeno” na memória da maioria das pessoas. Pois eu coloco em cheque a teoria de que filhos bem criados sejam capazes de se tornarem algozes de seus pais. Perdoem-me os psicólogos que defendem diferentes teorias sobre a formação da personalidade humana, mas na minha concepção, cada pai e cada mãe têm exatamente o filho que merece. Só corrijo minha afirmação para ressalvar os casos em que os filhos são muito melhores do que poderiam/deveriam ser, devido à criação que receberam. Do contrário, não existe injustiça, os pais recebem dos filhos o que um dia ofereceram a ele.

            Bem, agora você deve estar pensando: “eu conheço casos em que os filhos tiveram tudo e não valorizaram nada” – e com certeza você está correto em pensar assim. Mas de que consistia este “tudo” que os pais proporcionaram aos filhos? Brinquedos caros, roupas de marca, tênis importados, escolas particulares, viagens de férias à Disney...? E quem o ensinou o verdadeiro valor das coisas materiais? E os demais valores? E o afeto? E os limites? Quem se preocupou em transmiti-los? – Talvez você pense ainda: “os pais não deram (coisas materiais) porque não podiam, trabalhavam duro para levar comida pra mesa enquanto os filhos, ingratos, nunca aceitaram a condição financeira da família, voltando-se contra os pais” – Mas aí eu questiono: E durante o tempo que estiveram presentes, será que houve espaço para um carinho, para uma boa olhada no caderno da escola, para contar-lhe sobre o seu dia, para um “eu te amo”? – Ainda tentando me rebater você esteja pensando “conheço filhos que eram tudo para os pais, que foram cobertos de mimos, tiveram todos os seus desejos atendidos, os pais sempre providenciaram prontamente tudo de que eles sempre precisaram, deixavam de comprar coisas pra eles pra poder dar mais para os filhos” – E então eu pergunto: Será que estes pais em algum momento mostraram o seu próprio valor? Ou será que este filho foi criado achando que era superior ao pai já que a vez era sempre dele e nunca a do pai ou da mãe? Será que este filho aprendeu a lidar com o “não”, já que para ele a resposta sempre foi “sim”? E quando os pais não puderam atender ao desejo deste filho será que conseguiram argumentar com ele e fazê-lo compreender que nem tudo é possível ou será que se limitaram a amargar a impotência de não poder atendê-lo?

           Os filhos são excelentes aprendizes e eles assimilam absolutamente tudo o que os pais lhes transmitem. Os discursos, as práticas, o tom da voz, a atenção ou a indiferença. Tudo é absorvido, mesmo que isto não seja declarado. Os filhos, pela ordem cronológica, não podem ser responsabilizados pelos pais que têm. Porém os filhos, estes sim são de responsabilidade dos pais. Eles os colocam no mundo, criam, sustentam, orientam, ensinam as regras do jogo... são os primeiros e mais importantes exemplos na vida de uma criança.

            Antes de compreender estas coisas já critiquei muita gente, tachando como “filho ingrato”. Hoje, toda a vez que escuto alguém usar esta expressão, pergunto como foi a infância desta pessoa. Invariavelmente resposta está sempre lá.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Poder do Perdão


Tenho ouvido e lido em diversos veículos de comunicação, da boca de religiosos de diversas crenças, em livros de psicologia e auto-ajuda argumentos louváveis sobre o valor do perdão. Da dificílima arte de perdoar aqueles que nos magoam, nos ofendem, nos destratam, nos minimizam, nos enganam, nos traem de alguma forma... Confesso aqui que considero pessoalmente este o maior desafio do meu aprendizado. Sempre fui péssima de perdão, mas de tanto analisar os inúmeros benefícios que podemos obter em perdoar alguém, acabei vendo que não é tão difícil quanto eu imaginava. E que eu sou a maior beneficiada quando consigo perdoar alguém. Hoje divido com vocês algumas coisas que consegui aprender sobre esta superação.

Um aspecto muito relevante que consegui compreender é que não precisamos que alguém nos peça perdão para que perdoemos um mal causado. O perdão está acima da atitude do outro. Se fosse diferente, bastaria um pedido de desculpas para que tudo estivesse resolvido. E nós sabemos que não é bem assim que as coisas funcionam.

Perdoar é abrirmos mão de continuar sofrendo por algo que aconteceu conosco em algum determinado momento. Sempre é uma escolha nossa, nunca do outro. A escolha do outro foi ter-nos desapontado, a nossa é quanto tempo vamos cultivar a ferida que isto nos causou.

Existem pessoas que carregam com orgulho feridas abertas durante uma vida toda. Impedindo sua cicatrização, mesmo que a vida lhe proporcione emoções muito mais saudáveis e leves, elas continuam cultuando a energia negativa recebida de outra pessoa. Ostentam sua dor como um troféu, negando-se a abandonar o peso do rancor ou da sede de vingança. Pensam que assim estão punindo, ao menos energeticamente, que as feriu.

Vale lembrar que normalmente a ferida só importa para quem a carrega, e não para quem a causou. Pensamos que alimentar um ódio exposto no coração irá de alguma forma penalizar quem o causou. Ledo engano, lamento informar que quem magoou está pouco se lixando para o sofrimento causado. Não raro, ele só atinge as pessoas a quem amamos. Estas sim, ao assistir nossa agonia, tentam de todas as formas auxiliar-nos na superação do trauma, na libertação do coração. E acabam sendo as mais prejudicadas com nossa postura, além de nós mesmo, é claro.

Existe ainda um outro aspecto extremamente importante acerca do perdão que é o de retirarmos de uma espécie de altar aquela pessoa que acreditamos não ter nenhuma importância para nós. Sim, meus amigos, existem rancores tão profundos que nos cegam de forma aguda. Quando resolvemos eleger um desafeto como “o grande personagem da nossa história” entregamos a ele o papel de ator principal, abrindo mão de exercermos nós mesmos o protagonista da nossa “peça”. Nos deliciamos com as pequenas quedas que o outro possa ter, com qualquer sofrimento que possamos considerar, tentando enxergar nisto a justiça que pensamos que precisa ser feita. Passamos a dedicar a ele (consciente ou inconscientemente) toda a nossa atenção, fingindo ignorar alguém que não conseguimos esquecer. Enquanto isto a nossa vida passa, sem que demos a ela a verdadeira importância.

Para a luz do grande palco só haverá um protagonista. Sejamos nós a nossa própria escolha. Livre-se HOJE do peso inútil.

Perdoe! Faça isto por você.

domingo, 30 de setembro de 2012

VOCAÇÃO: Professor


Já é de domínio público o quanto a sociedade em que vivemos não valoriza os professores. Que aceitamos isto passivamente, também é fato. Caso não fosse, todos nós brasileiros reivindicaríamos uma escola melhor não só para nossos filhos estudarem, mas também para que o profissional mais importante dentre todos os existentes, o Educador, exercesse seu ofício com plena dignidade.

            A reflexão que proponho hoje diz respeito à questão da disciplina e o delicado papel do professor - especialmente da escola privada – em aplicá-la de forma eficaz dentro da sala de aula.

            Conversando com uma amiga cujo filho é colega do meu na escola, fica claro o quanto é importante o papel do professor na vida de qualquer cidadão. Nossos meninos têm quatro anos, atualmente cursam a série Jardim B de uma escola privada de médio porte. A escola, bem conceituada na região, possui uma estrutura que contempla área de esportes, recreação, laboratórios de informática, ciências, artes, biblioteca, sala de áudio e vídeo etc. A filosofia de “cidadania atuante” proposta pela instituição é de fato praticada através dos vários projetos desenvolvidos paralelamente às atividades curriculares. Tudo planejado, organizado e executado sem grandes problemas. Mas e os professores?

Há pouco mais de dois meses tive um problema com meu filho em relação à disciplina exigida pelo professor em sala de aula, ou melhor, a falta dela. Meu filho é um menino tranqüilo, normalmente cordato e bem educado. Freqüentemente vinha sendo agredido por outro coleguinha. Procurei me inteirar da situação, tentei entender o que de fato estava acontecendo, o porquê da freqüência com que ele vinha sendo atacado pelo colega e obtive então a resposta aos meus questionamentos: a família do menino estava com problemas. A informação que recebi da supervisora da escola é que o menino estava em tratamento e que a família já tinha sido chamada para que tomassem as rédeas da situação. Procurei ser compreensiva, embora isto seja extremamente difícil pra uma mãe cujo filho venha sendo agredido gratuitamente, e disse que esperava que aquilo se resolvesse o quanto antes. Passados alguns dias, o problema continuava se repetindo. Procurei novamente a supervisão da escola que se limitou a repetir o mesmo discurso de antes, que o menino estava em tratamento. Obviamente não pude de minha parte manter a mesma reação. Disse que exigia, infelizmente, então, que meu filho fosse afastado deste colega, que os dois não mais brincassem juntos, pois não toleraria mais aquela situação.

Ameacei tirar meu filho da escola, procurar outro colégio caso o problema não fosse definitivamente resolvido. Orientei meu filho a afastar-se do menino, apesar de não me sentir confortável em tomar esta decisão. Mas, como toda a mãe, precisava defender minha cria. Depois desta conversa em tom mais áspero, o problema finalmente se resolveu.

            Pois bem, hoje, minha amiga me relatou que o mesmo problema está ocorrendo com seu filho. O menino tem vindo mordido, arranhado, com marcas de agressão feitas por outro colega. A escola tem se limitado a pedir desculpas. Minha amiga, mãe responsável que é, está disposta a procurar um psicólogo, pois o filho tem apresentado comportamento de rebeldia e a professora tem relatado que ele tem resistido às suas determinações, mesma queixa que ela teve em relação ao meu na época em que estava sendo agredido sistematicamente pelo colega. Mas então eu pergunto o óbvio: como as crianças irão obedecer a um professor que não consegue manter a ordem dentro da sala de aula? Sei que o comportamento dos pequenos em grande parte deve-se aos exemplos vivenciados no ambiente familiar, mas criança nenhuma respeita um professor que não tem domínio sobre seu grupo.

            Sei que a medida da disciplina, a dose com que deve ser cobrada dos alunos é uma diretriz que cabe à coordenação da escola definir, não somente ao professor. Mas dentro da sala de aula ele é a autoridade máxima. E esta autoridade necessariamente precisa ser exercida, caso contrário, instaura-se o caos.

            Esta ínfima questão, de alunos ainda tão pequenos, reduzida a uma sala de aula que contempla pouco menos de 20 crianças é realmente insignificante diante todo o caminho que cada aluno deste grupo irá percorrer em sua trajetória enquanto estudantes. (Será?) Pois penso que é exatamente nesta preciosa idade, neste pequeno laboratório chamado Jardim B onde os grandes ensinamentos sobre a vida precisam ser passados.

            Atrevo-me a dizer que o professor é a figura mais importante da sociedade. É ele o multiplicador de idéias, o organizador do jardim onde cada canteiro receberá mudas que germinarão durante toda a vida, é ele quem seleciona as sementes, quem prepara a terra e lança sobre elas o que posteriormente brotará. Se ao invés disto, ele abster-se de sua missão, todos nós sabemos o que ocorrerá. O mestre tem o poder de potencializar todos os recursos disponíveis na instituição. A questão é tão relevante que não poderia, de forma nenhuma, passar despercebida por nenhum pai e nenhuma mãe. Só para exemplificar o que digo, quando levamos nossos filhos ao pediatra e, por um motivo qualquer não gostamos do médico, nunca mais retornamos ao consultório dele. Não titubeamos em procurar outro profissional que nos atenda melhor. No caso do professor não temos esta opção. Uma vez a turma formada e entregue a seu mestre, ele a acompanhará por todo um ano letivo. Um ano inteirinho representando um papel importantíssimo da vida de nossos filhos.

            Lembro que na época em que fiz magistério, minha turma foi a última a ser submetida a uma entrevista de seleção. Ali nós tínhamos que nos expor, falar um pouco sobre quem éramos, porque havíamos escolhido o magistério e o que esperávamos desta carreira. Infelizmente no ano seguinte ao meu ingresso o teste foi abolido. Ou seja, a partir daquele momento qualquer um que fizesse o curso estaria apto a dar aulas. Mas será que todos os graduados em licenciatura são realmente Professores? Será que todos possuem a capacidade de encantar os alunos com os conhecimentos que precisam transmitir à classe? E quanto ao domínio da turma? A falta de domínio, em minha opinião, já é um indicativo de que o professor não esteja conseguindo despertar nos alunos interesse suficiente para mantê-los ocupados com as tarefas que deveriam executar. Ou talvez se sinta inseguro quanto a sua autoridade, ou ainda não possua o talento inato presente somente aos vocacionados a esta sagrada profissão. Disciplina é essencial no processo educativo, e precisa ser exigida.

Até entendo que para a escola privada o aluno signifique um cliente pagante, mas a figura do professor deve estar muito acima da cifra que ele representa. Os alunos precisam perceber que o professor não é a mamãe, que eventualmente cede a todos os desejos. Que ele é o adulto do bando e que os limites impostos precisam ser obedecidos. Não sou a favor da palmatória, mas é preciso no mínimo recorrer à moeda de troca. Se uma criança não apresenta comportamento adequado é preciso que o professor tome alguma atitude: afastá-la temporariamente da atividade do grupo, mantê-la fora de alguma brincadeira, perder algum privilégio que poderia ser concedido... enfim, é preciso que as crianças entendam que tudo na vida traz conseqüências.

            É lógico que caso o comportamento inadequado persista a família deve ser chamada, orientada, também acompanhada caso precise de ajuda. Mas um professor, dentro da sala de aula, independe do pai ou da mãe. Se em casa o filho faz o que quer, na escola precisa ser diferente. Até para poupar os demais colegas das atitudes descabidas de uma criança que não conheça limites. É nosso papel como pais exigir isto da escola. Educação não é só transmissão de conteúdos, provas, boletim. A educação integral inclui a socialização da criança, a assimilação de regras de convivência, o preparo interpessoal para toda uma vida.

Nem todos os que hoje estão em sala de aula possuem aptidão para isto. É papel também dos pais exigir esta habilidade em relação aos professores, entregar a eles a nossa própria autoridade para que a escola dê continuidade ao nosso trabalho de educar. Se a criança em casa recebe uma teoria que não percebe se concretizar na escola, todo o nosso trabalho é colocado em risco. Não delego à escola o papel de “domesticar” os alunos, mas vejo que ela é a primeira possibilidade que eles têm de colocar em prática toda a bagagem que trazem da família.

Professor é muito mais que diploma, é vocação.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Arquivo Carlinhos

Ivoti - 08/09/2012 (Minha família)

Já estava mais do que na hora de fazer uma “limpa” na pasta do Carlinhos. Havia ali pouco mais de nove anos de história. Na semana passada, revirando documentos pra anexar ao processo de solicitação à Farmácia do Estado o fornecimento da dieta dele, finalmente criei coragem e me debrucei sobre o mar de papéis.

Lembrei momentos que, quando vividos, achei que nunca conseguiria esquecer. Ri, chorei, algumas coisas lamentei, me orgulhei... enfim, revi todo o passado e refresquei a memória visitando os caminhos que percorremos pra chegar até aqui.

Comecei pela sessão de documentos pessoais. Tudo estava organizado em ordem cronológica, pra facilitar a pesquisa sempre que necessário. Então pra iniciar, “Cartão da Criança” – uma espécie de carteirinha de vacinação que o bebê ganha ainda no hospital. O apgar (nota atribuída ao recém-nascido) nove sempre me deu frio na espinha. Numa escala de 0 a 10, nove é uma excelente nota. Ele havia nascido perfeito: batimentos cardíacos, respiração, musculatura, movimentos... tudo lá, funcionando perfeitamente. O hospital aonde meu filhote veio ao mundo fica há poucas quadras da casa onde hoje moro, talvez por ironia do destino.

Ainda analisando a carteirinha, já é possível começar a entender um pouco do drama que marcou de forma definitiva a integridade física e mental do meu pequeno. A mãe biológica, na época com 14 anos, só havia ido ao hospital para dar a luz ao menino, não foi feito pré-natal. Ela já era mãe de uma menina de um ano de idade e, nos anos seguintes, a saga de “um filho por ano” foi a opção de vida daquela adolescente.

Em seguida a primeira certidão de nascimento, constavam ali os nomes dos pais e avós biológicos. O sobrenome anterior denota uma vida tão distante da realidade atual que tive a impressão de estar segurando nas mãos o documento de uma outra pessoa, não do meu Carlinhos. Junto havia ainda a antiga cédula de identidade e cartão CPF, tudo com seus antigos dados. É surreal saber que meu pequeno, um dia, não foi meu.

Logo, vieram os prontuários médicos. Fôlego... perco ele toda a vez que leio o que está escrito nos papéis amarelados do Hospital da Criança Santo Antonio – Sta. Casa. A internação com 30 dias de vida deixa claro o descaso da família. Ele havia se afogado com o leite havia alguns dias e desde então apresentava muita tosse. Após um curto período de internação (onde não fica muito claro o motivo) foi mandado embora. Aos seis meses de vida chegara novamente ao hospital com “mal convulsivo”, espástico, apresentava hematomas na cabeça ocasionados em épocas diversas – este é o registro. A mãe, descrita como pessoa agitada, nervosa, demonstrava inquietação e pedia constantemente para ir embora. Foi encaminhada ao serviço social do hospital e, depois disto, não há relatos do procedimento do hospital em relação a ela.

A tomografia detectou um trauma na região fronto temporal, o diagnóstico de paralisia cerebral havia sentenciado o pequeno Carlinhos a uma vida muito diferente da grande maioria das crianças. (Sinto um aperto na região do estômago que não conseguiria descrever nem com todas as palavras da língua portuguesa. Não existe um termo que defina o buraco negro que se abre em minha mente quando penso nisto.) Vamos em frente...

Após um mês de internação na UTI o Carlinhos teve alta. Foi pra casa com a mesma mãe e mesmo pai que o trouxeram, mas agora além dos dois, as seqüelas cerebrais também o acompanhariam.

Dizem que as mães biológicas que dão à luz crianças especiais, não raro sentem-se “culpadas” inconscientemente por terem “gerado um bebê que nasceu com problemas”, talvez instinto. Não sei se esta teoria realmente procede. Mas posso garantir que nós, mães adotivas de crianças especiais cujos problemas dos filhos são decorrentes de maus tratos, negligência, uso de medicação em tentativa de aborto, uso de drogas durante a gestação etc, em alguns momentos nos sentimos sim culpadas. Culpadas por termos chegado tarde, por não termos podido evitar, por não estarmos presentes no momento em que eles mais precisaram de proteção, por sabermos que aquele precioso momento que nunca mais o tempo trará de volta marcou de forma definitiva a vida de nossos amados filhos, enquanto nós nem sabíamos que eles existiam. (Sei que isto é insano, mas existem estes momentos. Só estou expondo aqui o que de fato acontece.)

Passada a sessão que chamo “carinhosamente” de “vida anterior”, a próxima é a que traz as primeiras cores da pasta até então cinza, devido ao peso dos fatos: o folder do Instituto Amigos de Lucas. Lá oficializamos o vínculo do Apadrinhamento Afetivo. Após 4 anos de convivência com a família de origem, Carlinhos foi para um abrigo de Porto Alegre – o Lar Santo Antonio dos Excepcionais. Quando o conhecemos ele já tinha 5 anos, estava há quase 12 meses no abrigo. Lembrei do dia em que nos conhecemos, da indescritível alegria que senti quando vi aquele menino pela primeira vez. Meu marido experimentou a mesma sensação que eu ao vê-lo. O apadrinhamento durou dois anos. Buscávamos Carlinhos nas sextas-feiras à noite e o levávamos de volta nas segundas-feiras pela manhã. Após estes dois anos, quando ele já estava com sete, buscamos o caminho da adoção. Estas lembranças vieram à tona graças ao “Termo de Guarda Especial” concedido pelo Juiz aos participantes do programa de Apadrinhamento Afetivo, ao “Termo de Guarda” que recebemos quando ele veio morar conosco e finalmente a nova Certidão de Nascimento, quando da efetivação legal da adoção.

Lembrei as adaptações que fizemos na casa, nos horários, no trabalho, na vida social, na rotina, nos nossos hábitos alimentares... e por aí vai.

Sessão INSS – esta me causa certa indignação. Quando adotamos nosso pequeno, tivemos que informar o governo do que havíamos feito. Isto ocasionou a suspensão do benefício (de um salário mínimo) que ele recebia antes de ser adotado. Pela lei brasileira, as pessoas portadoras de deficiência só tem direito ao LOAS (o tal benefício) se a renda familiar  por pessoa representar menos que ¼ de salário mínimo. Ou seja, se a renda da família for de um salário mínimo e a família for composta por 4 pessoas, o deficiente não tem direito ao benefício. Se tiver 5, o direito é concedido. Nunca precisamos do benefício pra custear as despesas do Carlinhos, mas acho realmente injusto o critério. Fico pensando no custo que ele representaria ao estado se tivesse permanecido no abrigo. Além do salário, que continuaria recebendo, dependeria do SUS para ter acesso a atendimento de saúde, seria beneficiado por doações de pessoas físicas e empresas que deduzem do imposto de renda os valores que doam a instituições beneficentes, entre tantas outras despesas diretas e indiretas que os abrigos (mesmo as ONGs) “repassam” ao governo. Mas isto é assunto pra muitos argumentos, não é este o momento para isto.

A próxima sessão foi Plano de Saúde: exames, laudos, diagnósticos, receitas de medicação... Ali estavam as brigas judiciais e extra-judiciais que travamos com os planos a fim de garantir os direitos ao atendimento que ele precisou e que os planos, argumentando “doença pré-existente”, não queriam cobrir. Vencemos tudo, embora ainda não tenhamos recebido duas indenizações que ainda tramitam na justiça.

A esta altura da separação entre o que ficaria e o que seria descartado, as pilhas já estavam enormes. Os documentos da “vida anterior” foram devidamente inutilizados, assim como as solicitações médicas muito antigas que já tinham sido atendidas. O restante voltou pra pasta, tudo novamente organizado, agora mais arejadamente.

No final, cheguei ao recorte de jornal que mostrava a reportagem feita logo depois da adoção, relatando o caso e traçando um paralelo entre a vida real e a ficção que a novela das oito abordava na época. Em “Páginas da Vida” a atriz Regina Duarte também adotou uma menina especial – era um caso de Síndrome de Down. Lembrei o quanto ri ao ler a expressão “mãe coragem” que me atribuíram na ocasião da matéria. Logo eu, que tive uma adolescência tão “movimentada”, pra não ficar chato descrever aqui os detalhes de tudo o que aprontei.

Então percebi que naquele momento eu tinha realmente me tornado uma pessoa adulta. A adoção foi um divisor de águas não só na vida do Carlinhos, mas na minha e na do meu marido também. E não só por termos nos tornado pai e mãe. Eu havia assumido um compromisso que era muito maior do que eu. Tinha a responsabilidade de CUIDAR de alguém. Cuidar indefinidamente, já que não sabia o que o futuro me reservava. Cuidar por um período indeterminado, pois não sabemos por quanto tempo Deus nos concederá a graça de termos um anjo em nosso lar. Cuidar de alguém mais do que a mim mesma, pois para uma mãe a vida de um filho vale muito mais que a sua. Amar, amar, amar... e mais amar.

Amar infinitamente é o que me possibilita ter percorrido todo este caminho. Amar esta criança com devoção, com todas as minhas forças, de todo o meu coração é o que me deixa inteira pra seguir em frente e ter a certeza de que independente do que acontecer, todos os obstáculos serão superados.

Até quando? Não sei. Nem quero saber. Costumo sempre dizer que quero apenas que meu filho esteja bem durante o tempo em que ele estiver aqui. Sei que ele tem uma missão a cumprir, que nada de tudo o que ocorreu foi por acaso. Acredito piamente que para tudo existe uma ótima razão.

Vejo nele, hoje aos 14 anos, um “homem” forte, corajoso, determinado a nunca desistir, resignado, persistente por nunca ter sucumbido às suas mazelas. Sei que esta provação exige muito dele e que ele não tem decepcionado o seu propósito, mantendo-se firme, sorrindo para o mundo. Sei também que no dia em que esta missão chegar ao fim não seria justo que eu quisesse mantê-lo aqui além do tempo necessário. Sei que ele um dia será livre, receberá de volta a sua consciência, poderá flutuar por onde quiser, conseguirá falar, se expressar, será novamente senhor de si. Neste dia ele não dependerá de mais ninguém, será autossuficiente, estará inteiro de novo. Só então a missão estará encerrada.

O momento da despedida Deus é quem sabe, confio na Sua misericórdia e sei que Ele não me faltará se eu fraquejar. Enquanto isso, aproveito cada momento, cada dia que Ele me concede o privilégio de ser a Mãe do Carlinhos.