Ontem, conversando com uma prima acerca da desastrada
trajetória de vida de algumas pessoas que conhecemos, chegamos a uma espantosa
conclusão: está faltando Amor Próprio.
Digo espantosa, ao menos para mim,
porque basicamente o tal amor próprio, como objeto isolado de análise, nunca
esteve no foco da minha atenção. O amor próprio sempre me pareceu algo tão
elementar à natureza humana quanto o próprio instinto de preservação – aquele
que nos matem longe dos perigos que obviamente colocam nossa vida em risco.
Mas se o amor próprio fosse algo tão naturalmente inerente
à condição humana, como explicaríamos o uso abusivo de álcool, do tabaco, das
drogas ilícitas, das relações afetivas que nos rebaixam a fantoches nas mãos
daqueles que acreditamos ser “o grande amor da nossa vida”, a opção por dietas
ricas em gordura e doce em detrimento de uma alimentação saudável, o crescente
sedentarismo em todas as faixas etárias ou mesmo a acomodação a tantas
situações das quais vivemos eternamente nos queixando e não encontramos maneira
de colocar um ponto final (mesmo que caiba somente a nós que isto seja feito)?
Vejo nestas atitudes uma falta de
amor próprio tão grande que algumas delas praticamente colocam em cheque inclusive
o chamado instinto de preservação.
Nos exemplos que atingem diretamente
a nossa integridade física como o uso de substâncias químicas ou hábitos de
vida que sabidamente são prejudiciais à saúde isto é muito claro. Mas nos exemplos
que atingem basicamente nossa saúde emocional a falta de amor próprio também
está de fato presente. Primeiramente porque já está provado pela ciência que o
estado emocional (angústia, pessimismo, tristeza, solidão, depressão,
sentimento de culpa etc) fatalmente acaba atingindo a saúde física ao longo dos
anos. Além disto, nossa busca “inconsciente” por situações que nos levarão
obviamente a repetidas frustrações simplesmente terminam com nossa auto-estima.
Neste exemplo cabem perfeitamente aqueles que “têm o dedo podre para relações
amorosas”, ou seja, entram e saem de relacionamentos com critérios de seleção
de parceiros completamente equivocados. Pessoas que “se apaixonam perdidamente”
por parceiros que todos em volta estão vendo que não querem nenhum tipo de
compromisso emocional com elas.
Dentro do conjunto de elementos que
traduzem o amor estão presentes: o cuidado, o carinho, a proteção, a
preservação, a dedicação, a promoção do bem-estar, entre tantas formas que
temos de exercer de forma plena e saudável este sagrado sentimento. E onde
ficam estes fatores em relação a nós mesmos quando optamos por mergulhar em
situações que nos levam ao contrário de tudo isto?
Não vejo outra forma de interpretar
estes indícios como pura falta de amor próprio. Mas em que momento nos abandonamos?
Quem de nós consegue perceber o dia e a hora exatos em que abriu mão deste amor
e avaliou que não valeria mais a pena ser amado por si mesmo? E a única
resposta que consigo encontrar é a de que o amor próprio não pode ser sufocado,
subtraído ou renegado. Uma vez que ele exista jamais haverá o risco de que ele
venha a sucumbir diante das dificuldades do caminho. A grande questão é que o
amor próprio precisa ser construído.
Este exercício não pode ser externo
ao ser humano, o amor por si mesmo é algo que cada um de nós precisa encontrar
sozinho. Obviamente que o contexto familiar, durante a infância, é ingrediente
primordial para este processo, mas não é ele o único responsável por este
start. Precisamos, antes de qualquer coisa, de autoconhecimento para saber em
que base será calçado este sentimento. Assim como em qualquer relação, o amor
próprio necessita de admiração para manter o fôlego em dia, neste caso de
auto-admiração. Depois de detectarmos nossas forças e qualidades estamos
habilitados a determinar que objetivos iremos traçar. Sem autoconhecimento
nunca saberemos do que somos capazes, que tipo de interesses nos despertam a
atenção. Além disto, planos são combustível para o amor. Assim como nas
relações amorosas onde um namoro muito longo comumente esvai-se sem nunca se
tornar um casamento, se não temos projetos pessoais não estimulamos nossa
existência em busca de realizações que nos tragam orgulho. Não me refiro aqui
ao orgulho da sensação de superioridade, mas ao orgulho de alcançarmos uma
meta, da sensação de dever cumprido. E assim que os objetivos iniciais forem
alcançados, lancemo-nos aos próximos.
Como nenhum de nós é só qualidade,
também é importante termos ciência dos nossos defeitos e das nossas limitações.
Não para petrificá-los ao longo da nossa existência, tornando-nos conformados
com nossas fragilidades, mas para encará-los como desafios a serem superados
também. Qualquer limite nosso, por mais que chegue ao nosso conhecimento pelas
queixas de outra pessoa, proporciona os maiores prejuízos a nós mesmos
invariavelmente. Esta postura certamente nos fará traçar uma curva ascendente
em nossa trajetória de vida. Buscar realizar hoje aquilo que não nos foi
possível fazer ontem.
E finalmente, espiritualizar-se.
Procurar um entendimento mais amplo para a nossa existência. Buscar um sentido
maior à vida. Seja através de uma religião, de uma filosofia, de um conjunto de
valores que nos pareçam coerentes e positivos ou desenvolver para si mesmo um
conceito próprio que nos dê motivação para a concretização de um bom
desempenho.
Seja feliz!
Ame-se!
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