No último dia 15, Dia dos Professores, não me manifestei em
relação à comemoração da data por diversos motivos. Não que em minha memória
não residam excelentes professores, seres humanos admiráveis mesmo, pessoas que
me influenciaram positivamente e me ensinaram coisas que jamais esquecerei.
Mas hoje, aos 35 anos de idade, entendo a educação de uma
maneira muito diferente da que pensava na época em que passei pelos bancos
escolares. Nada como o distanciamento, após a vivência da experiência prática,
para termos uma visão mais abrangente dos fatos.
Mas voltando á minha ‘não manifestação’ do dia 15... bem,
não mandei aquele “Feliz dia dos Professores” generalizado (e olha que tenho
muitos amigos professores, também aqui no face), assim como não desejei um “Feliz
dia das Mães”, ou “Feliz qualquer outro dia” nas demais datas ‘comemorativas’
do ano, pelo simples fato de que nem todos os que figuram, realmente são.
Claro que tenho consciência da importância do professor na
vida de todos nós (mesmo daquele professor medíocre que se limita a bater o
cartão e enfiar goela abaixo dos alunos os conteúdos obrigatórios do
currículo). Mas não era da profissão que gostaria de falar, afinal o nome do
‘evento’ é dia do PROFESSOR e não ‘dia da educação’, ‘dia da escola’, ‘dia do
magistério’, e quero falar exatamente do motivo do feriado: o professor.
Há muitos anos que vejo a categoria, de uma forma geral, com
certo cansaço. Não um cansaço que arremeta a desprezo ou desvalorização,
refiro-me a um cansaço de ouvir sempre o mesmo discurso: o do coitadismo.
A educação no Brasil, como todos os demais serviços públicos
prestados pelo governo, em grande parte tem o estado como seu grande ‘patrão’.
E sabemos que o estado não costuma ser um bom patrão. Ele frequentemete
descumpre (ou tenta descumprir) a lei no que diz respeito à remuneração, não
proporciona o cenário ideal para o exercício da profissão, não premia os
melhores profissionais, não incentiva a reciclagem e a atualização de seus
‘empregados’, não proporciona o número suficiente de trabalhadores para que a
qualidade do trabalho seja considerada boa e não investe em pesquisa para que o
setor possa evoluir e aprimorar os seus serviços. Mas vejam que esta realidade
não é privilégio do magistério. Esta constatação se estende aos médicos, aos
policiais, aos agentes de saúde, aos garis, aos bancários, aos funcionários do
INSS, do DETRAN, da EPTC, da CARRIS...
Todos nós sabemos que está tudo errado mesmo. Sabemos que a
realidade dos funcionários públicos concursados precisa de uma ampla reforma,
que há muito a ser feito para que a população receba serviços de boa qualidade.
Mas o movimento de reivindicação dos professores adquiriu uma imagem de
sofrimento pessoal. Minha mãe é professora (hoje aposentada pelo estado),
participou de muitas greves, fez sinetaço em frente ao palácio do governo
quando eu era criança, participava das reuniões do CPERGS, foi ativa mesmo em
relação à luta da classe. E, na minha ótica, foi exatamente este caráter de
‘luta de classe’ que acabou afastando toda a sociedade do debate sobre a
educação. A sagrada educação, que deveria ser assunto de interesse de todos.
Os professores nunca fizeram greve reivindicando reforma nas
escolas, construção de mais unidades de ensino, contratação de mais
professores, cursos de atualização e reciclagem para que pudessem acompanhar a
evolução dos tempos, aquisição de tecnologia para o processo educativo,
ampliação das bibliotecas, um espaço para a arte dentro de cada escola,
melhoria da qualidade da merenda das crianças, entre tantas outras questões que
abrangem a educação e vão muito além da figura do professor. A única motivação
real das greves era o reajuste salarial. Óbvio que outras reivindicações
acompanhavam esta exigência, mas o final ou a continuação da greve sempre
esteve diretamente vinculado à negociação do percentual de reajuste.
Nós, enquanto sociedade, precisamos reivindicar muito mais
do que a remuneração digna aos professores. Talvez, se a classe amarrasse a
bandeira da causa própria (R$) à EDUCAÇÃO como processo ilimitado e interativo
entre a escola e a comunidade, a família, a tecnologia, a política, a saúde, a
segurança, a sexualidade, a problemática das drogas, da gravidez na
adolescência, a sociologia, o aquecimento global, a reciclagem do lixo, a
importância da atividade física (e aqui não estou falando da lamentável e sacal
aula de educação física que avalia o desempenho dos alunos de acordo com a
quantidade de voltas que ele consegue dar ao redor da praça em um determinado
tempo), de uma alimentação saudável, da ideologia transmitida pelos desenhos
animados, pela novela das nove, por programas como o Big Brother Brasil..., o
êxito de suas reivindicações seria uma luta de todos e não apenas dos
professores. Eles ganhariam o apoio de toda a sociedade e deixariam de ser
apenas gotas em um oceano.
E por falar em gotas no oceano, registro aqui um fato que me
fez acreditar que um dia, talvez, a educação, como todos os outros serviços
públicos, poderá sim superar todos estes problemas e chegar ao patamar da
excelência. Minha ex-colega do curso de magistério Gislaine Zambeli, que seguiu
carreira na escola pública, dividiu conosco em seu facebook como foi o
‘feriado’ dela na última segunda-feira. Ela foi para a escola, comemorou com
suas colegas o dia dedicado ao seu ofício (apesar de todas as dificuldades),
debateram os projetos futuros da escola, organizaram idéias, definiram metas,
TRABALHARAM!!!! Trabalharam não pelo salário, pelo cartão ponto, pelas férias
de 2 meses no verão e mais os 15 dias do inverno, não pelo direito a
assistência do IPE, pela licença prêmio, pela licença saúde, pela aposentadoria
privilegiada que os professores têm, trabalharam porque AMAM o que fazem,
porque têm consciência da sua importância para o mundo, porque se negam a ficar
apenas lamentando e sabem da sua responsabilidade em relação às crianças, aos
adolescentes, à construção de um Brasil que acreditam ser possível.
Parabéns, Gislaine!
Parabéns a direção da sua escola!
Parabéns a todos os professores QUE, assim como qualquer outro
trabalhador, faz a diferença dentro da sua profissão!
17/10/12
Como professora te digo, nossa classe é desunida. A começar pelo nosso sindicato, infelizmente descobri isso na greve de quase 90 dias, há alguns anos atrás. Beijos.
ResponderExcluirEu sei, disso, mãe. E as gurias me dizem que continua exatamente assim.
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