sábado, 22 de setembro de 2012

Herói de verdade


Ontem, por volta de onze horas da noite cheguei em casa após seis dias de internação com meu filho Carlinhos no Hospital da PUC de Porto Alegre. Meu filho precisava de uma gastrostomia, e por este motivo estava hospitalizado.
                Graças a Deus o procedimento foi um sucesso. O garoto é forte, apesar de todas as suas limitações adquiridas em decorrência de uma paralisia cerebral que o acometeu aos seis meses de vida. Hoje, com treze anos, Carlinhos acabou de superar mais um dos obstáculos que a vida insiste em colocar no seu caminho. Mas ele, como rotineiramente faz, não deixou por menos e tirou de letra mais esta provação.
                Vitórias da família a parte, após este episódio, nunca mais serei a mesma. Fui marcada por uma experiência única e, talvez, indescritível, já que as palavras jamais conseguirão expressar a essência dos sentimentos que vivenciamos.
                Dividi, durante este período, o quarto do hospital com um herói chamado Alan Vitor, de apenas três anos e meio de idade. O garoto teve um problema na uretra diagnosticado ainda durante a gestação. Ao nascer foi separado de sua progenitora, já que o hospital onde veio ao mundo não possuía recursos para tratar seu caso. Resultado: mãe e filho, cada um em um hospital, já que o parto foi prematuro e a mãe também precisava permanecer internada por alguns dias. Após um período inicial de atendimento, Alan teve alta e foi finalmente conhecer seu lar.
                Como a vida não segue ao pé da letra os contos de fadas, o caminho em direção ao final feliz de Alan tem muitas curvas e várias outras complicações surgiram ao longo destes três anos de vida. Desta vez, em que nos conhecemos, Alan já estava internado há trinta e cinco dias. O diagnóstico era de insuficiência renal aguda, que não respondeu bem ao tratamento com medicação, pois os rins continuam sem funcionar.
                Mas o que realmente me marcou não foram as idas e vindas de hospitais, as mudanças no diagnóstico, o desenrolar de cada etapa de dificuldade do frágil sistema urinário de Alan ou mesmo a incógnita que ainda paira sobre o seu verdadeiro diagnóstico. O que me deixou extasiada foi ver a sua persistência em continuar sorrindo, apesar das inúmeras agulhadas que recebia durante o dia, do confinamento de estar deitado dentro de um quarto de hospital frio e impessoal, a simpatia com que recebia os técnicos da enfermagem, médicos, enfermeiros, coletores de amostras de todos os tipos, fisioterapeutas e todos os demais que entravam e saíam do quarto a todo o momento. Eu era arrebatada ao ouvi-lo dizer “Estou bem” toda a vez que algum deles perguntava como ele estava se sentindo.
                O cateter da hemodiálise fincado no ombro, parecendo uma medalha de condecoração militar era a sua honraria. Ele exalava luz por todo o ambiente.
                Obviamente nos momentos de dor ele chorava, mas imediatamente ao término do procedimento lá estava ele, inteiro novamente, pronto pra assistir ao próximo desenho animado como se nada daquilo estivesse realmente acontecendo.
                Foi mágico estar em companhia daquele menino, me senti covarde perto de tanta força, tanta determinação em não assimilar o sofrimento, em se manter indiferente ao difícil. Era comovente assistir sua respiração profunda antes de aceitar mais uma dose de remédio, como se tivesse consciência de que era aquela a única alternativa.
                Há coisas na vida que são inesquecíveis. A coragem daquele menino tão pequeno, de cabelos dourados lisinhos, com olhar atento e resignado, jamais sairá da minha memória.
                Sinto-me privilegiada por ter conhecido alguém tão especial, no sentido mais completo da palavra. Torço pela sua recuperação. Desejo ardentemente que a biópsia prevista para ser feita esta semana revele que o caso dele não é tão grave, e que o uso de novos medicamentos poderá ajudá-lo.
                E a vida segue... agora com mais doçura, pois tenho a convicção de que super heróis existem, são de carne e osso, estão generosamente vivendo entre nós (simples mortais). Eles sim são eternos. Eternos em sua grandiosidade, em sua luminosidade, em sua inabalável vontade de vencer os desafios. Seja o Alan também eterno em minha lembrança.
Cachoeirinha, 21 de março de 2012.

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