terça-feira, 25 de setembro de 2012

Arquivo Carlinhos

Ivoti - 08/09/2012 (Minha família)

Já estava mais do que na hora de fazer uma “limpa” na pasta do Carlinhos. Havia ali pouco mais de nove anos de história. Na semana passada, revirando documentos pra anexar ao processo de solicitação à Farmácia do Estado o fornecimento da dieta dele, finalmente criei coragem e me debrucei sobre o mar de papéis.

Lembrei momentos que, quando vividos, achei que nunca conseguiria esquecer. Ri, chorei, algumas coisas lamentei, me orgulhei... enfim, revi todo o passado e refresquei a memória visitando os caminhos que percorremos pra chegar até aqui.

Comecei pela sessão de documentos pessoais. Tudo estava organizado em ordem cronológica, pra facilitar a pesquisa sempre que necessário. Então pra iniciar, “Cartão da Criança” – uma espécie de carteirinha de vacinação que o bebê ganha ainda no hospital. O apgar (nota atribuída ao recém-nascido) nove sempre me deu frio na espinha. Numa escala de 0 a 10, nove é uma excelente nota. Ele havia nascido perfeito: batimentos cardíacos, respiração, musculatura, movimentos... tudo lá, funcionando perfeitamente. O hospital aonde meu filhote veio ao mundo fica há poucas quadras da casa onde hoje moro, talvez por ironia do destino.

Ainda analisando a carteirinha, já é possível começar a entender um pouco do drama que marcou de forma definitiva a integridade física e mental do meu pequeno. A mãe biológica, na época com 14 anos, só havia ido ao hospital para dar a luz ao menino, não foi feito pré-natal. Ela já era mãe de uma menina de um ano de idade e, nos anos seguintes, a saga de “um filho por ano” foi a opção de vida daquela adolescente.

Em seguida a primeira certidão de nascimento, constavam ali os nomes dos pais e avós biológicos. O sobrenome anterior denota uma vida tão distante da realidade atual que tive a impressão de estar segurando nas mãos o documento de uma outra pessoa, não do meu Carlinhos. Junto havia ainda a antiga cédula de identidade e cartão CPF, tudo com seus antigos dados. É surreal saber que meu pequeno, um dia, não foi meu.

Logo, vieram os prontuários médicos. Fôlego... perco ele toda a vez que leio o que está escrito nos papéis amarelados do Hospital da Criança Santo Antonio – Sta. Casa. A internação com 30 dias de vida deixa claro o descaso da família. Ele havia se afogado com o leite havia alguns dias e desde então apresentava muita tosse. Após um curto período de internação (onde não fica muito claro o motivo) foi mandado embora. Aos seis meses de vida chegara novamente ao hospital com “mal convulsivo”, espástico, apresentava hematomas na cabeça ocasionados em épocas diversas – este é o registro. A mãe, descrita como pessoa agitada, nervosa, demonstrava inquietação e pedia constantemente para ir embora. Foi encaminhada ao serviço social do hospital e, depois disto, não há relatos do procedimento do hospital em relação a ela.

A tomografia detectou um trauma na região fronto temporal, o diagnóstico de paralisia cerebral havia sentenciado o pequeno Carlinhos a uma vida muito diferente da grande maioria das crianças. (Sinto um aperto na região do estômago que não conseguiria descrever nem com todas as palavras da língua portuguesa. Não existe um termo que defina o buraco negro que se abre em minha mente quando penso nisto.) Vamos em frente...

Após um mês de internação na UTI o Carlinhos teve alta. Foi pra casa com a mesma mãe e mesmo pai que o trouxeram, mas agora além dos dois, as seqüelas cerebrais também o acompanhariam.

Dizem que as mães biológicas que dão à luz crianças especiais, não raro sentem-se “culpadas” inconscientemente por terem “gerado um bebê que nasceu com problemas”, talvez instinto. Não sei se esta teoria realmente procede. Mas posso garantir que nós, mães adotivas de crianças especiais cujos problemas dos filhos são decorrentes de maus tratos, negligência, uso de medicação em tentativa de aborto, uso de drogas durante a gestação etc, em alguns momentos nos sentimos sim culpadas. Culpadas por termos chegado tarde, por não termos podido evitar, por não estarmos presentes no momento em que eles mais precisaram de proteção, por sabermos que aquele precioso momento que nunca mais o tempo trará de volta marcou de forma definitiva a vida de nossos amados filhos, enquanto nós nem sabíamos que eles existiam. (Sei que isto é insano, mas existem estes momentos. Só estou expondo aqui o que de fato acontece.)

Passada a sessão que chamo “carinhosamente” de “vida anterior”, a próxima é a que traz as primeiras cores da pasta até então cinza, devido ao peso dos fatos: o folder do Instituto Amigos de Lucas. Lá oficializamos o vínculo do Apadrinhamento Afetivo. Após 4 anos de convivência com a família de origem, Carlinhos foi para um abrigo de Porto Alegre – o Lar Santo Antonio dos Excepcionais. Quando o conhecemos ele já tinha 5 anos, estava há quase 12 meses no abrigo. Lembrei do dia em que nos conhecemos, da indescritível alegria que senti quando vi aquele menino pela primeira vez. Meu marido experimentou a mesma sensação que eu ao vê-lo. O apadrinhamento durou dois anos. Buscávamos Carlinhos nas sextas-feiras à noite e o levávamos de volta nas segundas-feiras pela manhã. Após estes dois anos, quando ele já estava com sete, buscamos o caminho da adoção. Estas lembranças vieram à tona graças ao “Termo de Guarda Especial” concedido pelo Juiz aos participantes do programa de Apadrinhamento Afetivo, ao “Termo de Guarda” que recebemos quando ele veio morar conosco e finalmente a nova Certidão de Nascimento, quando da efetivação legal da adoção.

Lembrei as adaptações que fizemos na casa, nos horários, no trabalho, na vida social, na rotina, nos nossos hábitos alimentares... e por aí vai.

Sessão INSS – esta me causa certa indignação. Quando adotamos nosso pequeno, tivemos que informar o governo do que havíamos feito. Isto ocasionou a suspensão do benefício (de um salário mínimo) que ele recebia antes de ser adotado. Pela lei brasileira, as pessoas portadoras de deficiência só tem direito ao LOAS (o tal benefício) se a renda familiar  por pessoa representar menos que ¼ de salário mínimo. Ou seja, se a renda da família for de um salário mínimo e a família for composta por 4 pessoas, o deficiente não tem direito ao benefício. Se tiver 5, o direito é concedido. Nunca precisamos do benefício pra custear as despesas do Carlinhos, mas acho realmente injusto o critério. Fico pensando no custo que ele representaria ao estado se tivesse permanecido no abrigo. Além do salário, que continuaria recebendo, dependeria do SUS para ter acesso a atendimento de saúde, seria beneficiado por doações de pessoas físicas e empresas que deduzem do imposto de renda os valores que doam a instituições beneficentes, entre tantas outras despesas diretas e indiretas que os abrigos (mesmo as ONGs) “repassam” ao governo. Mas isto é assunto pra muitos argumentos, não é este o momento para isto.

A próxima sessão foi Plano de Saúde: exames, laudos, diagnósticos, receitas de medicação... Ali estavam as brigas judiciais e extra-judiciais que travamos com os planos a fim de garantir os direitos ao atendimento que ele precisou e que os planos, argumentando “doença pré-existente”, não queriam cobrir. Vencemos tudo, embora ainda não tenhamos recebido duas indenizações que ainda tramitam na justiça.

A esta altura da separação entre o que ficaria e o que seria descartado, as pilhas já estavam enormes. Os documentos da “vida anterior” foram devidamente inutilizados, assim como as solicitações médicas muito antigas que já tinham sido atendidas. O restante voltou pra pasta, tudo novamente organizado, agora mais arejadamente.

No final, cheguei ao recorte de jornal que mostrava a reportagem feita logo depois da adoção, relatando o caso e traçando um paralelo entre a vida real e a ficção que a novela das oito abordava na época. Em “Páginas da Vida” a atriz Regina Duarte também adotou uma menina especial – era um caso de Síndrome de Down. Lembrei o quanto ri ao ler a expressão “mãe coragem” que me atribuíram na ocasião da matéria. Logo eu, que tive uma adolescência tão “movimentada”, pra não ficar chato descrever aqui os detalhes de tudo o que aprontei.

Então percebi que naquele momento eu tinha realmente me tornado uma pessoa adulta. A adoção foi um divisor de águas não só na vida do Carlinhos, mas na minha e na do meu marido também. E não só por termos nos tornado pai e mãe. Eu havia assumido um compromisso que era muito maior do que eu. Tinha a responsabilidade de CUIDAR de alguém. Cuidar indefinidamente, já que não sabia o que o futuro me reservava. Cuidar por um período indeterminado, pois não sabemos por quanto tempo Deus nos concederá a graça de termos um anjo em nosso lar. Cuidar de alguém mais do que a mim mesma, pois para uma mãe a vida de um filho vale muito mais que a sua. Amar, amar, amar... e mais amar.

Amar infinitamente é o que me possibilita ter percorrido todo este caminho. Amar esta criança com devoção, com todas as minhas forças, de todo o meu coração é o que me deixa inteira pra seguir em frente e ter a certeza de que independente do que acontecer, todos os obstáculos serão superados.

Até quando? Não sei. Nem quero saber. Costumo sempre dizer que quero apenas que meu filho esteja bem durante o tempo em que ele estiver aqui. Sei que ele tem uma missão a cumprir, que nada de tudo o que ocorreu foi por acaso. Acredito piamente que para tudo existe uma ótima razão.

Vejo nele, hoje aos 14 anos, um “homem” forte, corajoso, determinado a nunca desistir, resignado, persistente por nunca ter sucumbido às suas mazelas. Sei que esta provação exige muito dele e que ele não tem decepcionado o seu propósito, mantendo-se firme, sorrindo para o mundo. Sei também que no dia em que esta missão chegar ao fim não seria justo que eu quisesse mantê-lo aqui além do tempo necessário. Sei que ele um dia será livre, receberá de volta a sua consciência, poderá flutuar por onde quiser, conseguirá falar, se expressar, será novamente senhor de si. Neste dia ele não dependerá de mais ninguém, será autossuficiente, estará inteiro de novo. Só então a missão estará encerrada.

O momento da despedida Deus é quem sabe, confio na Sua misericórdia e sei que Ele não me faltará se eu fraquejar. Enquanto isso, aproveito cada momento, cada dia que Ele me concede o privilégio de ser a Mãe do Carlinhos.

18 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Conheci a Dani pré-Carlinhos, e já era fã... depois do Carlinhos, reconheço nela mais do que a "mãe coragem", mas uma heroína que, mais do que falar, agiu com toda a coragem, todo o amor e toda a dedicação na vida deste jovenzinho.
    Ler este relato só traz mais certeza de que Deus mandou os anjos certos para cuidar do menino.
    Quanto ao futuro, bem, vivemos um dia de cada vez, não é Dani!? E que cada dia neste convívio com o seu filhote seja um dia de amor, satisfação e de paz...

    P.S: vale um print desta matéria de jornal aí, hein?rsrsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Rodri!!! (sempre querendo mais, né? kkkkk - A recém inaugurei o blog e tu já tá pensando e print...) Bj.

      Excluir
  3. Amiga.....sem palavras,ao ler troquei mentalmente o nome carlinhos por yuri,senti um aperto no peito e não contive as lagrimas,nossa tu conta com detalhes a minha trajetoria com o meu pequeno guerreiro,tbm ainda guardo toda a papelada.
    Dani parabéns e obrigado por me permitir ler em tua historia a minha,sou cada vez mais tua fã..muito,muito sucesso,beijos com carinho...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Adri! Temos mesmo muito pra contar desta riquíssima experiência que é termos adotado nossos filhotes. Meu blog se propõe justamente a isto, promover a reflexão e a inspiração dos leitores. Bj.

      Excluir
  4. Legal, Dani. O Carlinhos também aprendeu muito nesse tempo...

    ResponderExcluir
  5. Sempre soube que tinha uma filha forte, destemida, determinada
    corajosa, linda por fora e muito mais por dentro.Sua alma e seu amor pela vida não têm limites, só não sabia que era capaz de descrever seus sentimentos c/ requintes de comprensão.Filha querida, Carlinhos voltou à nossa família atraves de ti. Com certeza ele veio nos mostrar as dificuldades com uma fortaleza impar e nos mostrar o que é ser um vencedor. Estamos todos beneficiados e agradecidos à Deus por ter nos devolvido o CARLOS ANTONIO(até o nome é forte). Um beijo minha Daniela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, mamy!!! Não esqueça que a semente do bem é de fabricação caseira. kkkk Obrigada por tudo! Bj

      Excluir
  6. Mais um belo depoimento hein Dani... Parabéns! E concordo com sua mãe, esse guri é forte até no nome!!! Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Nat! A ideia é disseminar a essência da história a fim de inspirar os leitores.

      Excluir
  7. DANI!
    ESTE FICARÁ POSTADO (EHEHEH)
    ...
    História de um índio sobre um pequeno colibri.

    Incêndio na Floresta
    Havia um grande incêndio na floresta. Preocupados, os animais fugiam da selva em chamas. Quando todos se encontraram em um lugar seguro, bem distante do fogo, ficaram apenas olhando. Eles sentiam que nada podiam fazer, pois o incêndio era enorme. No entanto, um pequeno colibri decidiu que tentaria apagar o fogo.
    O pássaro foi até um rio próximo, pegou uma gota de água, sobrevoou a floresta em chamas e lançou a gota que carregava no bico. Enquanto ele ia e vinha, os outros animais lhe perguntavam: “O que você está fazendo? Nada podes fazer, tu és muito pequeno e este incêndio é muito grande”. Alguns animais tinham bicos bem grandes, e não ajudavam.
    Mas o colibri estava convencido que podia apagar o incêndio e continuou jogando pequenas gotas nas chamas que consumiam as árvores. Ao final, diante da floresta queimada, o colibri disse aos demais animais que havia feito o melhor que podia.

    ...

    Estou vendo nos seus relatos algo muito parecido com esta história. E este colibri chamado Dani, está de gota em gota enriquecendo-nos com belas histórias.
    Grande beijo do trio.
    Clauss Renan, Carlos e Tadeu

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quase toda a vez que recebo um novo comentário neste texto, acabo chorando...
      Sim, amigo querido, SOMOS colibris. Às vezes ridicularizados, não compreendidos, desrespeitados, desdenhados, mas continuamos firmes. Se cada gota que carregarmos for o suficiente pra apagar o incêndio de um coração em chamas, já terá valido a pena. Bj.

      Excluir
  8. Cara Dani,
    As vezes me pergunto o que a vida quer de nós, mas a melhor pergunta o que queremos da vida para nós, pois somos nós que fazemos nossas escolhas, por mais difícil que seja alguma situação nossa ou de outra pessoa tudo tem um por quê. Acredito que nada acontece por acaso em nossas vidas. Também acredito que estamos aqui para resgatar nossas vidas, e reencontrar pessoas que já amamos ou que precisamos estar juntas novamente para acertar e resgatar algumas pendências e ajudarmos a sermos pessoas melhor do que somos. Tb me considero um colibri, mas não me deixo abalar, pois que esta correria do dia a dia nos coloque a prova nossa perseverança. Pois eu acredito no amanhã. Luz e Paz. Carmen

    ResponderExcluir