domingo, 30 de setembro de 2012

VOCAÇÃO: Professor


Já é de domínio público o quanto a sociedade em que vivemos não valoriza os professores. Que aceitamos isto passivamente, também é fato. Caso não fosse, todos nós brasileiros reivindicaríamos uma escola melhor não só para nossos filhos estudarem, mas também para que o profissional mais importante dentre todos os existentes, o Educador, exercesse seu ofício com plena dignidade.

            A reflexão que proponho hoje diz respeito à questão da disciplina e o delicado papel do professor - especialmente da escola privada – em aplicá-la de forma eficaz dentro da sala de aula.

            Conversando com uma amiga cujo filho é colega do meu na escola, fica claro o quanto é importante o papel do professor na vida de qualquer cidadão. Nossos meninos têm quatro anos, atualmente cursam a série Jardim B de uma escola privada de médio porte. A escola, bem conceituada na região, possui uma estrutura que contempla área de esportes, recreação, laboratórios de informática, ciências, artes, biblioteca, sala de áudio e vídeo etc. A filosofia de “cidadania atuante” proposta pela instituição é de fato praticada através dos vários projetos desenvolvidos paralelamente às atividades curriculares. Tudo planejado, organizado e executado sem grandes problemas. Mas e os professores?

Há pouco mais de dois meses tive um problema com meu filho em relação à disciplina exigida pelo professor em sala de aula, ou melhor, a falta dela. Meu filho é um menino tranqüilo, normalmente cordato e bem educado. Freqüentemente vinha sendo agredido por outro coleguinha. Procurei me inteirar da situação, tentei entender o que de fato estava acontecendo, o porquê da freqüência com que ele vinha sendo atacado pelo colega e obtive então a resposta aos meus questionamentos: a família do menino estava com problemas. A informação que recebi da supervisora da escola é que o menino estava em tratamento e que a família já tinha sido chamada para que tomassem as rédeas da situação. Procurei ser compreensiva, embora isto seja extremamente difícil pra uma mãe cujo filho venha sendo agredido gratuitamente, e disse que esperava que aquilo se resolvesse o quanto antes. Passados alguns dias, o problema continuava se repetindo. Procurei novamente a supervisão da escola que se limitou a repetir o mesmo discurso de antes, que o menino estava em tratamento. Obviamente não pude de minha parte manter a mesma reação. Disse que exigia, infelizmente, então, que meu filho fosse afastado deste colega, que os dois não mais brincassem juntos, pois não toleraria mais aquela situação.

Ameacei tirar meu filho da escola, procurar outro colégio caso o problema não fosse definitivamente resolvido. Orientei meu filho a afastar-se do menino, apesar de não me sentir confortável em tomar esta decisão. Mas, como toda a mãe, precisava defender minha cria. Depois desta conversa em tom mais áspero, o problema finalmente se resolveu.

            Pois bem, hoje, minha amiga me relatou que o mesmo problema está ocorrendo com seu filho. O menino tem vindo mordido, arranhado, com marcas de agressão feitas por outro colega. A escola tem se limitado a pedir desculpas. Minha amiga, mãe responsável que é, está disposta a procurar um psicólogo, pois o filho tem apresentado comportamento de rebeldia e a professora tem relatado que ele tem resistido às suas determinações, mesma queixa que ela teve em relação ao meu na época em que estava sendo agredido sistematicamente pelo colega. Mas então eu pergunto o óbvio: como as crianças irão obedecer a um professor que não consegue manter a ordem dentro da sala de aula? Sei que o comportamento dos pequenos em grande parte deve-se aos exemplos vivenciados no ambiente familiar, mas criança nenhuma respeita um professor que não tem domínio sobre seu grupo.

            Sei que a medida da disciplina, a dose com que deve ser cobrada dos alunos é uma diretriz que cabe à coordenação da escola definir, não somente ao professor. Mas dentro da sala de aula ele é a autoridade máxima. E esta autoridade necessariamente precisa ser exercida, caso contrário, instaura-se o caos.

            Esta ínfima questão, de alunos ainda tão pequenos, reduzida a uma sala de aula que contempla pouco menos de 20 crianças é realmente insignificante diante todo o caminho que cada aluno deste grupo irá percorrer em sua trajetória enquanto estudantes. (Será?) Pois penso que é exatamente nesta preciosa idade, neste pequeno laboratório chamado Jardim B onde os grandes ensinamentos sobre a vida precisam ser passados.

            Atrevo-me a dizer que o professor é a figura mais importante da sociedade. É ele o multiplicador de idéias, o organizador do jardim onde cada canteiro receberá mudas que germinarão durante toda a vida, é ele quem seleciona as sementes, quem prepara a terra e lança sobre elas o que posteriormente brotará. Se ao invés disto, ele abster-se de sua missão, todos nós sabemos o que ocorrerá. O mestre tem o poder de potencializar todos os recursos disponíveis na instituição. A questão é tão relevante que não poderia, de forma nenhuma, passar despercebida por nenhum pai e nenhuma mãe. Só para exemplificar o que digo, quando levamos nossos filhos ao pediatra e, por um motivo qualquer não gostamos do médico, nunca mais retornamos ao consultório dele. Não titubeamos em procurar outro profissional que nos atenda melhor. No caso do professor não temos esta opção. Uma vez a turma formada e entregue a seu mestre, ele a acompanhará por todo um ano letivo. Um ano inteirinho representando um papel importantíssimo da vida de nossos filhos.

            Lembro que na época em que fiz magistério, minha turma foi a última a ser submetida a uma entrevista de seleção. Ali nós tínhamos que nos expor, falar um pouco sobre quem éramos, porque havíamos escolhido o magistério e o que esperávamos desta carreira. Infelizmente no ano seguinte ao meu ingresso o teste foi abolido. Ou seja, a partir daquele momento qualquer um que fizesse o curso estaria apto a dar aulas. Mas será que todos os graduados em licenciatura são realmente Professores? Será que todos possuem a capacidade de encantar os alunos com os conhecimentos que precisam transmitir à classe? E quanto ao domínio da turma? A falta de domínio, em minha opinião, já é um indicativo de que o professor não esteja conseguindo despertar nos alunos interesse suficiente para mantê-los ocupados com as tarefas que deveriam executar. Ou talvez se sinta inseguro quanto a sua autoridade, ou ainda não possua o talento inato presente somente aos vocacionados a esta sagrada profissão. Disciplina é essencial no processo educativo, e precisa ser exigida.

Até entendo que para a escola privada o aluno signifique um cliente pagante, mas a figura do professor deve estar muito acima da cifra que ele representa. Os alunos precisam perceber que o professor não é a mamãe, que eventualmente cede a todos os desejos. Que ele é o adulto do bando e que os limites impostos precisam ser obedecidos. Não sou a favor da palmatória, mas é preciso no mínimo recorrer à moeda de troca. Se uma criança não apresenta comportamento adequado é preciso que o professor tome alguma atitude: afastá-la temporariamente da atividade do grupo, mantê-la fora de alguma brincadeira, perder algum privilégio que poderia ser concedido... enfim, é preciso que as crianças entendam que tudo na vida traz conseqüências.

            É lógico que caso o comportamento inadequado persista a família deve ser chamada, orientada, também acompanhada caso precise de ajuda. Mas um professor, dentro da sala de aula, independe do pai ou da mãe. Se em casa o filho faz o que quer, na escola precisa ser diferente. Até para poupar os demais colegas das atitudes descabidas de uma criança que não conheça limites. É nosso papel como pais exigir isto da escola. Educação não é só transmissão de conteúdos, provas, boletim. A educação integral inclui a socialização da criança, a assimilação de regras de convivência, o preparo interpessoal para toda uma vida.

Nem todos os que hoje estão em sala de aula possuem aptidão para isto. É papel também dos pais exigir esta habilidade em relação aos professores, entregar a eles a nossa própria autoridade para que a escola dê continuidade ao nosso trabalho de educar. Se a criança em casa recebe uma teoria que não percebe se concretizar na escola, todo o nosso trabalho é colocado em risco. Não delego à escola o papel de “domesticar” os alunos, mas vejo que ela é a primeira possibilidade que eles têm de colocar em prática toda a bagagem que trazem da família.

Professor é muito mais que diploma, é vocação.

Um comentário:

  1. Sou professorfora, como sabes, hoje aposentada, sempre tive uma postura muito firme em sala da aula, até pela propria disciplina que ministrava, porem te digo uma coisa, se o professor não tem o apoio da escola(direção) e esta da Sec.de Educ., fica muito difícil um educador cumprir plenamente seu papel. Na escola particular se o professor
    não seguir as regras da direção, ele cairá fora da instituição e sabes como é, achar um novo espaço para trabalhar não está fácil. Bjs.

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