Um bom amigo é
como um presente de Deus. Dentre tantas pessoas com as quais convivemos,
encontrar uma que nos seja especial é, de fato, um verdadeiro achado.
Amizade não se
constrói só de afinidades, boas risadas ou eventuais confidências. Ela precisa
necessariamente da passagem do tempo, das mudanças de fase da vida, da nova cor
do cabelo, do novo comprimento da saia... Só sabemos que encontramos um grande
amigo, muito tempo depois de ele estar em nossa vida. É quando olhamos pra trás
e percebemos o quanto mudamos, o quanto ele também mudou e, ainda assim,
continuamos encontrando motivos para nos mantermos ligados, que finalmente percebemos
a dimensão da sua importância.
Grandes amigos
são como pedaços de nós. Eles nos complementam, ajudam a descobrir quem somos,
nos fazem falta quando se afastam e nos permitem sentir plenos quando se aproximam.
Sensações que só a extrema cumplicidade pode nos proporcionar.
E cumplicidade
nada tem a ver com concordância eterna. Ao contrário. Às vezes, é justamente a
descoberta de um novo ponto de vista o que nos enriquece. É na perspectiva do
amigo que encontramos resposta para muitos de nossos questionamentos. Só amigos
de verdade discordam sem brigar, contrapõem idéias sem ofender, compreendem
nossa paisagem, mas também são capazes de nos oferecer outro horizonte,
completamente inesperado. E foi de muitas afinidades e valiosas diferenças que
compreendi que grande amiga é a Aninha.
Poderia
atribuir o carinho que tenho por ela à forma com que sempre tratou o meu filho
Carlinhos. Antes mesmo de ele ser adotado, enquanto ainda só era nosso
afilhado, a Ana nunca economizou afeto e atenção com meu pequeno nas ocasiões
em que ela o encontrava na minha casa. Depois que me tornei mãe de uma criança
com paralisia cerebral, aprendi a valorizar os mínimos gestos de aproximação
das pessoas em relação ao meu filho. Não que eu me ressinta com que não tenha
esta iniciativa, mas ver alguém se aproximar dele com naturalidade e sem receio
enche mesmo o meu coração de alegria. Mas apesar da importância que isto sempre
teve pra mim, a gratidão que hoje tenho pela Ana vai muito além do vínculo que
ela tem com o Carlinhos.
Nos primeiros
anos, nossos encontros não eram muito frequentes, na verdade nos conhecemos
porque nossos maridos já eram amigos. Mas a sua companhia sempre me pareceu
muito agradável. Pessoa educada e de trato comedido, a Ana sempre contrastou
com meu jeito mais “largado” de ser. Apesar de termos muitas coisas em comum,
lidávamos com os dilemas do dia-a-dia de forma muito diferente.
Foi em meados
de 2010 que a Ana se tornou a fisioterapeuta do Carlinhos. A princípio seria
apenas um atendimento pós-cirúrgico, mas depois de constatarmos a enorme
necessidade que ele tinha de fisioterapia contínua, acabamos contratando
definitivamente os seus serviços. E foi então que decidimos abraçar a
possibilidade de nos tornarmos amigas.
Enquanto o
Carlinhos fazia fisioterapia, eu e a Ana fazíamos... terapia.
Conversávamos
sobre tudo, as mais variadas pautas. Desde os pequenos acontecimentos domésticos
até a filosofia sobre as grandes questões da humanidade. Da criação dos filhos
ao gênio terrível dos maridos (e como rendeu este assunto – kkk...). De
receitas culinárias às expectativas para o futuro. Dos traumas de infância à
carreira profissional. Conviver com a Ana era como escrever um diário. Relatei
minhas histórias e conheci as dela com a mesma riqueza de detalhes. Contamos
das nossas forças e fraquezas, das dúvidas e das certezas, das esperanças e
decepções, da alegria e da tristeza e de tudo mais que a vida nos traz.
É... a Ana
soube conquistar o seu espaço.
Hoje, sinto-me
triste e feliz. A Ana mudou-se para Santa Catarina, decidiu no final do ano
passado que não queria mais viver em Gravataí. Nasceu e se criou nesta cidade,
que hoje é pequena pra ela. A casa mal localizada, o trânsito diário e infernal
da via crucis Cachoeirinha/Porto
Alegre, a ausência de natureza, a violência urbana e seus próprios conflitos
interiores (tão comuns na nossa idade) levaram a Ana pra longe. Longe de nós,
mas em busca dela mesma, da sua felicidade, de mais qualidade de vida, de menos
corre-corre e estresse. Minha amiga sonha grande e sabe que tudo é uma questão
de “fazer acontecer”.
Estou feliz
por ela e triste por mim, pelo Carlinhos, pelas minhas manhãs, que agora estão
em silêncio...
Mas ao mesmo
tempo também me sinto feliz. Sinto-me orgulhosa da sua atitude, da sua coragem
e da sua sede de vida, de alegria e realização. Tenho profunda admiração por
aqueles que rasgam a cortina da hipocrisia, da mediocridade, do horizonte
cinzento e partem de peito aberto em busca de um novo rumo.
Logo a Ana,
que sempre me pareceu tão indefesa, tão frágil e “bem comportada”... Nunca
imaginei que aquela moça tão pacienciosa, discreta e reservada fosse capaz de
um passo tão ousado quanto este. Pra mim a ficha só caiu quando, nos últimos
dias de atendimento, a Ana trouxe a nova fisioterapeuta que irá dar
continuidade ao seu trabalho com o Carlinhos. Fiquei grata pela sua preocupação
em encaminhar o meu filho para alguém de sua confiança, mas no fundo não queria
que aquela moça tivesse chegado. Ela representava o fim de um ciclo, o
rompimento de uma convivência tão agradável e que eu não gostaria que
terminasse. Ainda assim, desejei boas-vindas. Quem sabe esta nova presença não
me reserva mais uma grande amizade?
Quanto à
Ana..., o que se pode dizer de uma amiga tão querida e leal?
“Aninha,
desejo a você toda a felicidade deste mundo.
Desejo que
encontres tudo aquilo que procuras,
Desejo que
esta nova etapa da tua vida seja repleta de realizações,
De alegria,
De paz,
De amor e de
harmonia.
Desejo que
sejas muito, muito, muuuuito feliz.
Obrigada, por
tudo!”
Dani, como diz Lavoiser "nada termina, tudo se transforma". Tua amizade c/ Aninha não terminou e jamais irá terminar, apenas ela mudou de endereço.Quem sabe não foram nas longas conversas que voces tiveram, nas trocas, nas risadas, nas experiencias (por vezes tão doloridas),nas reflexões, que foram dando à ela a certeza de que ela seria capaz de dar um giro em sua própria vida quem sabe, até então,faltando algo que ela mesma não sabia. Filha querida, sem te dar conta, contribuiste e muito para a decisão que a Ana tomou. Sente-te feliz em contribuir para a felicidade da tua tão querida amiga. Também simpatizei muito c/ ela.Bjs.
ResponderExcluirTens toda a razão, mãe. Amizade verdadeira não morre nunca. Quanto a minha influência, talvez tenhas razão. Mas isto só ela poderia dizer. De qualquer forma, tudo valeu a pena. Bjs!
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