quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Difícil Adeus


Um bom amigo é como um presente de Deus. Dentre tantas pessoas com as quais convivemos, encontrar uma que nos seja especial é, de fato, um verdadeiro achado.
Amizade não se constrói só de afinidades, boas risadas ou eventuais confidências. Ela precisa necessariamente da passagem do tempo, das mudanças de fase da vida, da nova cor do cabelo, do novo comprimento da saia... Só sabemos que encontramos um grande amigo, muito tempo depois de ele estar em nossa vida. É quando olhamos pra trás e percebemos o quanto mudamos, o quanto ele também mudou e, ainda assim, continuamos encontrando motivos para nos mantermos ligados, que finalmente percebemos a dimensão da sua importância.
Grandes amigos são como pedaços de nós. Eles nos complementam, ajudam a descobrir quem somos, nos fazem falta quando se afastam e nos permitem sentir plenos quando se aproximam. Sensações que só a extrema cumplicidade pode nos proporcionar.
E cumplicidade nada tem a ver com concordância eterna. Ao contrário. Às vezes, é justamente a descoberta de um novo ponto de vista o que nos enriquece. É na perspectiva do amigo que encontramos resposta para muitos de nossos questionamentos. Só amigos de verdade discordam sem brigar, contrapõem idéias sem ofender, compreendem nossa paisagem, mas também são capazes de nos oferecer outro horizonte, completamente inesperado. E foi de muitas afinidades e valiosas diferenças que compreendi que grande amiga é a Aninha.
Poderia atribuir o carinho que tenho por ela à forma com que sempre tratou o meu filho Carlinhos. Antes mesmo de ele ser adotado, enquanto ainda só era nosso afilhado, a Ana nunca economizou afeto e atenção com meu pequeno nas ocasiões em que ela o encontrava na minha casa. Depois que me tornei mãe de uma criança com paralisia cerebral, aprendi a valorizar os mínimos gestos de aproximação das pessoas em relação ao meu filho. Não que eu me ressinta com que não tenha esta iniciativa, mas ver alguém se aproximar dele com naturalidade e sem receio enche mesmo o meu coração de alegria. Mas apesar da importância que isto sempre teve pra mim, a gratidão que hoje tenho pela Ana vai muito além do vínculo que ela tem com o Carlinhos.
Nos primeiros anos, nossos encontros não eram muito frequentes, na verdade nos conhecemos porque nossos maridos já eram amigos. Mas a sua companhia sempre me pareceu muito agradável. Pessoa educada e de trato comedido, a Ana sempre contrastou com meu jeito mais “largado” de ser. Apesar de termos muitas coisas em comum, lidávamos com os dilemas do dia-a-dia de forma muito diferente.
Foi em meados de 2010 que a Ana se tornou a fisioterapeuta do Carlinhos. A princípio seria apenas um atendimento pós-cirúrgico, mas depois de constatarmos a enorme necessidade que ele tinha de fisioterapia contínua, acabamos contratando definitivamente os seus serviços. E foi então que decidimos abraçar a possibilidade de nos tornarmos amigas.
Enquanto o Carlinhos fazia fisioterapia, eu e a Ana fazíamos... terapia.
Conversávamos sobre tudo, as mais variadas pautas. Desde os pequenos acontecimentos domésticos até a filosofia sobre as grandes questões da humanidade. Da criação dos filhos ao gênio terrível dos maridos (e como rendeu este assunto – kkk...). De receitas culinárias às expectativas para o futuro. Dos traumas de infância à carreira profissional. Conviver com a Ana era como escrever um diário. Relatei minhas histórias e conheci as dela com a mesma riqueza de detalhes. Contamos das nossas forças e fraquezas, das dúvidas e das certezas, das esperanças e decepções, da alegria e da tristeza e de tudo mais que a vida nos traz.
É... a Ana soube conquistar o seu espaço.
Hoje, sinto-me triste e feliz. A Ana mudou-se para Santa Catarina, decidiu no final do ano passado que não queria mais viver em Gravataí. Nasceu e se criou nesta cidade, que hoje é pequena pra ela. A casa mal localizada, o trânsito diário e infernal da via crucis Cachoeirinha/Porto Alegre, a ausência de natureza, a violência urbana e seus próprios conflitos interiores (tão comuns na nossa idade) levaram a Ana pra longe. Longe de nós, mas em busca dela mesma, da sua felicidade, de mais qualidade de vida, de menos corre-corre e estresse. Minha amiga sonha grande e sabe que tudo é uma questão de “fazer acontecer”.
Estou feliz por ela e triste por mim, pelo Carlinhos, pelas minhas manhãs, que agora estão em silêncio...
Mas ao mesmo tempo também me sinto feliz. Sinto-me orgulhosa da sua atitude, da sua coragem e da sua sede de vida, de alegria e realização. Tenho profunda admiração por aqueles que rasgam a cortina da hipocrisia, da mediocridade, do horizonte cinzento e partem de peito aberto em busca de um novo rumo.
Logo a Ana, que sempre me pareceu tão indefesa, tão frágil e “bem comportada”... Nunca imaginei que aquela moça tão pacienciosa, discreta e reservada fosse capaz de um passo tão ousado quanto este. Pra mim a ficha só caiu quando, nos últimos dias de atendimento, a Ana trouxe a nova fisioterapeuta que irá dar continuidade ao seu trabalho com o Carlinhos. Fiquei grata pela sua preocupação em encaminhar o meu filho para alguém de sua confiança, mas no fundo não queria que aquela moça tivesse chegado. Ela representava o fim de um ciclo, o rompimento de uma convivência tão agradável e que eu não gostaria que terminasse. Ainda assim, desejei boas-vindas. Quem sabe esta nova presença não me reserva mais uma grande amizade?
Quanto à Ana..., o que se pode dizer de uma amiga tão querida e leal?
“Aninha, desejo a você toda a felicidade deste mundo.
Desejo que encontres tudo aquilo que procuras,
Desejo que esta nova etapa da tua vida seja repleta de realizações,
De alegria,
De paz,
De amor e de harmonia.
Desejo que sejas muito, muito, muuuuito feliz.
Obrigada, por tudo!”

2 comentários:

  1. Dani, como diz Lavoiser "nada termina, tudo se transforma". Tua amizade c/ Aninha não terminou e jamais irá terminar, apenas ela mudou de endereço.Quem sabe não foram nas longas conversas que voces tiveram, nas trocas, nas risadas, nas experiencias (por vezes tão doloridas),nas reflexões, que foram dando à ela a certeza de que ela seria capaz de dar um giro em sua própria vida quem sabe, até então,faltando algo que ela mesma não sabia. Filha querida, sem te dar conta, contribuiste e muito para a decisão que a Ana tomou. Sente-te feliz em contribuir para a felicidade da tua tão querida amiga. Também simpatizei muito c/ ela.Bjs.

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    1. Tens toda a razão, mãe. Amizade verdadeira não morre nunca. Quanto a minha influência, talvez tenhas razão. Mas isto só ela poderia dizer. De qualquer forma, tudo valeu a pena. Bjs!

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