Poucas expressões causam-me tanta
aversão quanto “filho ingrato”. E olha que não faltam exemplos deste “fenômeno”
na memória da maioria das pessoas. Pois eu coloco em cheque a teoria de que
filhos bem criados sejam capazes de se tornarem algozes de seus pais.
Perdoem-me os psicólogos que defendem diferentes teorias sobre a formação da
personalidade humana, mas na minha concepção, cada pai e cada mãe têm
exatamente o filho que merece. Só corrijo minha afirmação para ressalvar os
casos em que os filhos são muito melhores do que poderiam/deveriam ser, devido
à criação que receberam. Do contrário, não existe injustiça, os pais recebem
dos filhos o que um dia ofereceram a ele.
Bem, agora você deve estar pensando:
“eu conheço casos em que os filhos tiveram tudo e não valorizaram nada” – e com
certeza você está correto em pensar assim. Mas de que consistia este “tudo” que
os pais proporcionaram aos filhos? Brinquedos caros, roupas de marca, tênis
importados, escolas particulares, viagens de férias à Disney...? E quem o
ensinou o verdadeiro valor das coisas materiais? E os demais valores? E o
afeto? E os limites? Quem se preocupou em transmiti-los? – Talvez você pense
ainda: “os pais não deram (coisas materiais) porque não podiam, trabalhavam
duro para levar comida pra mesa enquanto os filhos, ingratos, nunca aceitaram a
condição financeira da família, voltando-se contra os pais” – Mas aí eu
questiono: E durante o tempo que estiveram presentes, será que houve espaço
para um carinho, para uma boa olhada no caderno da escola, para contar-lhe
sobre o seu dia, para um “eu te amo”? – Ainda tentando me rebater você esteja
pensando “conheço filhos que eram tudo para os pais, que foram cobertos de
mimos, tiveram todos os seus desejos atendidos, os pais sempre providenciaram prontamente
tudo de que eles sempre precisaram, deixavam de comprar coisas pra eles pra
poder dar mais para os filhos” – E então eu pergunto: Será que estes pais em
algum momento mostraram o seu próprio valor? Ou será que este filho foi criado
achando que era superior ao pai já que a vez era sempre dele e nunca a do pai
ou da mãe? Será que este filho aprendeu a lidar com o “não”, já que para ele a
resposta sempre foi “sim”? E quando os pais não puderam atender ao desejo deste
filho será que conseguiram argumentar com ele e fazê-lo compreender que nem
tudo é possível ou será que se limitaram a amargar a impotência de não poder
atendê-lo?
Os filhos são excelentes aprendizes e
eles assimilam absolutamente tudo o que os pais lhes transmitem. Os discursos,
as práticas, o tom da voz, a atenção ou a indiferença. Tudo é absorvido, mesmo
que isto não seja declarado. Os filhos, pela ordem cronológica, não podem ser
responsabilizados pelos pais que têm. Porém os filhos, estes sim são de
responsabilidade dos pais. Eles os colocam no mundo, criam, sustentam,
orientam, ensinam as regras do jogo... são os primeiros e mais importantes
exemplos na vida de uma criança.
Antes de compreender estas coisas já
critiquei muita gente, tachando como “filho ingrato”. Hoje, toda a vez que
escuto alguém usar esta expressão, pergunto como foi a infância desta pessoa. Invariavelmente
resposta está sempre lá.
Belo texto, Como sempre. Não esqueça que hoje em dia existe uma babilônia familiar. Pais "casando", unindo seus filhos com vícios do outro berço, e, daqui a pouco estará no berço de outra família, que estará novamente com outra família. Uma doideira só. Entendo que são pais com estrutura mal resolvida, exatamente como você citou. Que só pensam em colocar filhos no seio familiar esquecendo-se do principal. BASE SÓLIDA. Já ouvi relato de mãe dizendo que estará "dando" um presente para o seu companheiro. Um filho. Pode isso??? É f... Tomara que seu texto sirva como um puxão de orelha ou quem sabe, talvez, manual de reflexão antes de pensarem em querer filhos para presenteá-los ou "segurar' marido. Abraços.
ResponderExcluirExcelente reflexão, meu amigo. Estas barbaridades que fazem com a cabeça das crianças realmente são revoltantes. Não me considero uma pessoa retrógrada, mas devido às percas cada vez mais profundas da "entidade" família, acho que daqui há alguns anos vai faltar asilo pros péssimos pais de hoje. Os filhos terão cada vez menos o que reconhecer, serão cada vez menos gratos e a culpa NÃO será deles. Beijão!
ExcluirÓtima tua reflexão, porém penso que trazemos de berço uma "tendencia" à ser trabalhada e muitas vezes extremamente enraigada em nosso ser e que com as melhore intensões, nós pais, não conseguimos ir à fundo em nosso filho. Outras vezes é o contrário que acontece, filhos de pais (ou só pai ou só mãe) totalmente desestruturados têm filhos que são verdadeiros LIRIOS nascidos na lama. Bjs filha. Sou orgulhosa e feliz c/ as filhas que tenho.
ResponderExcluirMuito bom teu raciocínio, Dani.
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